sábado, 16 de agosto de 2014

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O Inferno são os Outros


Um tema pelo qual tenho me interessado muito é a Intersubjetividade: a capacidade do homem de se relacionar com o seu semelhante. Jean-Paul Sartre resumiu seu ponto de vista sobre este assunto em uma frase presente na sua peça de teatro Entre Quatro Paredes: “o inferno são os outros”.

Para Sartre, a principal característica do homem é a sua liberdade fundamental. Sendo assim, mesmo alguém mantido sob a pior forma de dominação, no fundo permanece livre em seu ser, em sua consciência. Em outras palavras, um homem jamais conseguirá dominar completamente o outro.

Isto explica, em parte, porque as relações humanas são em geral conflituosas: na presença do outro há um confronto entre minha liberdade e a dele. E porque o outro também é livre, não podemos controlar o que ele pensa e o que ele nos diz. Porém, ao mesmo tempo preciso dele, de seu olhar crítico, ainda que, muitas vezes, esse olhar veja algo em nós que não gostamos.

Esta questão da liberdade dos indivíduos me remete a uma entrevista que vi recentemente no Youtube do grande Mario Sérgio Cortella. Neste vídeo, o filósofo discorreu sobre o conceito de ética e liberdade fazendo um paralelo com o seriado Chaves. Irei transcrever na íntegra a sua fala para que o leitor não perca nenhum detalhe:

"No contexto da discussão sobre ética. Você tem que lembrar que o Chaves, o personagem da TV, ele é alguém que se inspirou num pensador clássico chamado Diógenes. Diógenes foi um filósofo grego pós-socrático que morava num barril. Tal como Sócrates viveu solto na praça, discutindo, e o Chaves mora num barril, Diógenes, que era um alguém da escola cínica na Filosofia, morava num barril e vivia nu. Aliás, porque ele não tinha propriedade alguma pra não ser propriedade de nada. Se você já observou na série “Chaves”, ninguém tem animal de estimação naquela vilinha, porque o único ser ali que é um animal de estimação é o próprio Chaves. Segundo, é o único que é livre, o único que pode dizer o que quer, ele não tem nada a perder."


O Cortella só cometeu um pequeno equívoco pois o Chaves não mora no barril segundo palavras dele mesmo:
"Eu não moro no barril, eu só entro no barril porquê... bem, você sabe... pra... "
"Só por esporte."
"Isso!"
(Diálogo entre Chaves e Kiko)

E qual o motivo de um texto filosófico em um blog de finanças? Bom, estamos por aqui com o intuito de prosear sobre mercados, indicadores, ativos, dentre outros temas, e vez ou outra recebemos alguns comentários um tanto quanto mais exaltados (para não dizer ofensivos). Até já falei sobre este tema em um post recente. E sempre que isto ocorre procuro entender o que está por trás daquelas mal grafadas linhas. Muitas vezes o indivíduo está tão transtornado que a frase é confusa, desconexa e repleta de erros de português.

Poderia simplesmente excluir o comentário maldoso e deixar passar batido, mas excluindo penso que a pessoa ficará ainda mais exaltada, pois se sentirá tolhida na sua liberdade de falar. E se o espaço é aberto a comentários então eu não devo censurar, seria uma incoerência, não estou correto?

Mas voltemos às finanças, e já que o assunto são eleições, no próximo post falarei sobre os investimentos dos candidatos. Aguardem.

Bom fim de semana a todos!

Ah, abaixo a entrevista citada, para quem não conhece o cara, sugiro assistir outras entrevista e palestras do mesmo no Youtube porque são imperdíveis...


30 comentários:

  1. Olá. UB! Bom texto.
    O Cortella é sensacional.
    Veja o jornal da Cultura, é um jornal diferente onde sempre tem dois comentadores. Há comentadores muito bons e o Cortella é um deles. Sempre de bom humor, vale a pena ouvi-lo mesmo.

    Abraço!

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    1. Ele é fantástico, tenho alguns livros dele e sempre procuro no youtube videos novos. Vou procurar os videos do jornal da cultura, valeu!

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    2. Adoro o Jornal da Cultura, assisto todos os dias e o formato é ótimo. Matéria e discussão com os convidados.

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    3. Eu não vejo TV então tenho que procurar é na internet mesmo, rs

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  2. Fala Uó, beleza?

    Comecei há 1 semana a divulgar minha carteira completa e também estratégias de investimentos, entre ações, FIIs e renda fixa. Além de divulgar a carteira completa, a partir do mês que vem também vou divulgar TODAS as minhas receitas e TODOS os meus gastos, organizadamente e em forma de gráficos. Além disso também farei breves análises de balanços das empresas que tenho ações, notícias de FII, entre outros.. E também falarei um pouco sobre minha vida pessoal, mas bem pouco mesmo pois o foco será falar sobre investimentos mesmo.

    Se você pudesse dar uma força e me adicionar na sua Blogroll de "Blogs que divulgam carteira" eu ficaria muito agradecido.

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  3. Uo, gosto muito do seu blog, mas ultimamente vc está mais para filósofo ou psicólogo. O foco parece que mudou muito... grande abraço!

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    1. RK, o blog acaba sendo um espelho da minha vida, não compro mais livros de finanças, e sim sobre assuntos comportamentais, percebi que para lidar com minhas maiores falhas na área financeira deveria encontrar meu eu interior, kkk, brincadeira, mas realmente tenho procurado me afastar dos gráficos e me aproximar das letras, deve ser a crise dos 40 chegando, rs.

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    2. Isso é a influência do soulsurfer na blogosfera.

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    3. Boas influências são sempre bem vindas, quem não é influenciado aí levanta a mão... rs, minha mãe ja dizia: "filho, tome cuidado apenas com as más influências..."

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    4. Uó,

      Vou ter que concordar com o Bagual. Nos últimos tempos você está muito sentimental, rs.

      Abraços.

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  4. Como assim no Chaves não tinha animal de estimação? O cachorro da Bruxa do 71 chamava Satanás, o do Kiko chamava Madruguinha, depois ele arrumou um rato. A Dona Neves tinha um periquito chamado Soriano, o Chaves caçava lagartixas, o professor Girafales arrumou um gato pro restaurante da Dona Florinda...

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    1. E aqui nós temos uma Besta.

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    2. Assisti poucos episodios desta série, nem lembrava destes bichos. rs

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  5. Outra história interessante sobre Diógenes é quando Alexandre, O Grande, perguntou a ele sobre como poderia ajuda-lo, podendo Diógenes pedir o que quisesse, mas na posição em que Alexandre estava, fazia sombra sobre Diógenes que estava deitado, esse respondeu:
    -Por favor, saia da frente do sol.

    Figura esse Diógenes. hehe

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    1. Reza a lenda, que uma vez Diógenes pisou numa vestimenta de Platão (deveria ser tipo uma manta) e disse "Pisei no Orgulho de Platão" (Platão vinha de uma família rica, e era uma forma de criticá-lo) e Platão teria respondido "E como você ficou orgulhoso com isso".

      Abraço!

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    2. Hehe, adoro estas estorinhas...

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  6. O FDP do guardião bloqueou comentários de nós anônimos.

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    1. Acho bobeira, é como aquela velha frase: falem mal de mim mas falem de mim, rs.

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  7. Variar os posts é bastante interessante Uó, ainda mais quando parte-se para temas bacanas como estes. Aposto que vários blogueiros são inteligentes também em outras áreas, não só finanças, e é muito bom compartilhar!
    Só uma coisinha a corrigir Cortella, a Bruxa do 71 tem sim um bicho de estimação, o gato satanás, lembra? Rsrsrs
    Grande abraço!

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    1. Agora que vi que o Anon chamado de Besta pelo outro Anon já tinha citado o gato! kkkkkkkkkkkkk

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    2. Valeu Thales, mas tem pessoas que não tem muito saco para outros assuntos, meio que um bitolação, mas isto está ligado a uma fase de vida, já teve tempos que eu só queria saber de médias móveis, digamos que é um processo de expansão da mente, rs.

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  8. Minha opinião é que você esta errado em não censurar alguns comentários.

    Eu acredito que sem ordem não há progresso (estranho eu tenho a certeza que já li isso em algum lugar)

    Enfim tudo na vida sem disciplina tende a perder o rumo.

    Infelizmente algumas pessoas não sabem conviver socialmente nesse caso é válido censurar esses "tipos", que não respeitam o tema central, ou que faltam com o mínimo, que é a educação.

    Agora essa postura de o que podemos chamar nos dias de hoje como "pedagogia do amor" é uma das coisas mais danosas do nosso país como sociedade.

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    1. Entendo seu ponto de vista Viver, poderia até fazer mais um post exclusivo sobre este assunto, mas para não soar muito chato aqui no blog pois alguns já estão até reclamando, rs, vou então deixar aqui um texto que gosto muito...

      Naquele outono, de tarde, ao pé da roseira de minha avó, eu obrei.
      Minha avó não ralhou nem.
      Obrar não era construir casa ou fazer obra de arte.
      Esse verbo tinha um dom diferente.
      Obrar seria o mesmo que cacarar.
      Sei que o verbo cacarar se aplica mais a passarinhos
      Os passarinhos cacaram nas folhas nos postes nas pedras do rio nas casas.
      Eu só obrei no pé da roseira da minha avó.
      Mas ela não ralhou nem.
      Ela disse que as roseiras estavam carecendo de esterco orgânico.
      E que as obras trazem força e beleza às flores.
      Por isso, para ajudar, andei a fazer obra nos canteiros da horta.
      Eu só queria dar força às beterrabas e aos tomates.
      A vó então quis aproveitar o feito para ensinar que o cago não é uma coisa desprezível.
      Eu tinha vontade de rir porque a vó contrariava os ensinos do pai
      Minha avó, ela era transgressora.
      No propósito ela me disse que até as mariposas gostavam de roçar nas obras verdes.
      Entendi que obras verdes seriam aquelas feitas no dia.
      Daí que também a vó me ensinou a não desprezar as coisas desprezíveis
      E nem os seres desprezados.

      Memórias Inventadas: a infância
      Manuel de Barros

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    2. Manuel de Barros...bem sugestivo pela "obra". kkkk

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    3. Igual o joão de barro do panico? Pedia papel higienico com a mão suja de barro.

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    4. "Daí que também a vó me ensinou a não desprezar as coisas desprezíveis
      E nem os seres desprezados."

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  9. O Cortella tem o mérito de ser um provocador, no melhor sentido da palavra.
    Suas palestras e livros servem como porta de entrada para o pensamento filosófico.
    A linguagem acessível que ele utiliza serve para desmistificar o pensamento crítico e a filosofia.

    Diógenes era uma figura. Ele desprezava os valores sociais.
    Ele andava na companhia de cachorros de rua, daí a origem do termo "Cínico" (cino = cachorro)

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    1. Justamente Tarik, o cara é um popularizador da filosofia...
      Abraço!

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