segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Alphaville: Fuga da Realidade


Dirigido por Jean-Luc Godard, Alphaville (1965) é uma ficção científica inspirada em filmes noir cuja temática é focada em aspectos filosóficos e existenciais tendo como pano de fundo os avanços tecnológicos que o futuro pode proporcionar. Godard nos apresenta um longa futurista e sombrio, que remete diretamente ao lado negro da humanidade, quando esta deixa de dar o devido valor aos sentimentos e a relação humana para favorecer a tecnologia.

Alphaville é uma das cidades mais estéreis e opressoras que o cinema já viu. É governada por um computador que dita como todas as pessoas da cidade devem viver - todas as emoções são proibidas. Em uma cena, um homem pergunta a uma moça se está chorando, ela responde que não, pois é proibido. Em todo lugar há uma bíblia, que na verdade é um dicionário que é constantemente atualizado. Todo dia ele tem palavras cortadas que foram consideradas proibidas.


Nos Alphavilles brasileiros as emoções são permitidas e a mais contundente talvez seja a sensação permanente de aprisionamento. Nestes condomínios - micro-cidades na verdade - os indivíduos têm a sensação de viver em uma cidade “ideal”, porém irreal. Os Alphavilles são a materialização dos contrates sociais na sua forma mais chocante, na medida em que percebemos uma sociedade aparentemente harmoniosa e feliz no lado de dentro dos muros e uma sociedade caótica e conturbada do lado de fora.

Sempre que passei perto de um destes condomínios tentei imaginar como seria viver lá dentro. Seria uma experiência saudável para os pais e filhos esta fuga da realidade? Para adultos que nasceram e cresceram em cidades reais penso que o impacto não é tão grande. Mas para um indivíduo em formação de personalidade e caráter, este isolamento do mundo real pode trazer alguns efeitos colaterais. É o preço que se paga pela fuga da violência das grandes cidades. Nestes dois documentários é possível perceber de forma clara esta tendência.



Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia

Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
O quase tudo quase sempre é quase nada...

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre as cobras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Nas grandes cidades de um país tão surreal
Os muros e as grades
Nos protegem de nosso próprio mal
Levamos uma vida que não nos leva a nada
Levamos muito tempo prá descobrir
Que não é por aí...não é por nada não
Não, não pode ser...é claro que não é
¿Será?

Meninos de rua, delírios de ruína
Violência nua e crua, verdade clandestina
Delírios de ruína, delitos & delícias
A violência travestida faz seu trottoir
Em armas de brinquedo, medo de brincar
Em anúncios luminosos, lâminas de barbear

Uma voz sublime
Uma palavra sublime
Um discurso subliminar
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez

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14 comentários:

  1. Para quem não tem filhos e vive de dividendos deve ser muito bom. Nada de preocupação, piscina, academia.


    De outro lado, quem quer formar família vai ter de se preocupar.



    Ter filhos é um gasto enorme, além de ser fonte de stress e preocupações.


    Concordo com o Doutor Investidor.

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    1. Mas a maior parte das famílias lá tem filhos, e estão lá justamente por isto, rs.

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  2. Uó,

    Uma vez eu conheci Alphaville quando fui disputar um jogo de futsal lá. É simplesmente outro mundo. As casas são maravilhosas, iguais as que vemos nos EUA.

    Algumas ficavam com as portas abertas e era comum ver bicicletas e carros "abandonados" no meio das ruas. Realmente, é outra realidade, rs. Mas eu não moraria lá porque ODEIO qualquer tipo de condomínios.

    Abraços.

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  3. Tenho parentes que morar nesses condomínios, e realmente eles "estragam" uma criança. Meus primos que nasceram lá são mimados a décima potência, e não tem a mínima noção do mundo real. Uma delas com 11 anos de idade não sabia o que era um ônibus.
    Por outro lado pra "gente crescida" é um paraíso. Tudo realmente funciona, bem utópico mesmo. Mas particularmente, eu preferiria morar em um bairro de classe alta do que em condomínio, porque como o IL aí em cima, detesto condomínios, em razão das taxas e regras.
    Abraços.

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    1. Taxas e regas são alguns dos ônus...
      Sobre seus primos, talvez quem estragou foram os pais e não o condomínio em si.
      Abraço!

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  4. Respostas
    1. Pois é, bom que o povo lá dá um dinheirinho pra gente, rs

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  5. Blog atualizado com a posição de agosto: http://investidorconvicto.blogspot.com.br/

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