O nome "ferro" deriva do latim "ferrum", enquanto o anglo-saxónico "iron" tem origem no escandinavo "iarn". Tem-se indícios do uso de ferro procedente de meteoritos, quatro milênios a.C., pelos sumérios e egípcios. Na pré-história descobriram alguns objetos de ferro em explorações arqueológicas na pirâmide de Gizé, no Egipto; na China, estima-se que a utilização do aço remonta a 2550 a.C.. Também nos é indicado pelos poetas védicos que os seus antepassados pré-históricos possuíam o ferro, e que os seus artesãos já tinham adquirido técnica considerável na transformação de ferro em utensílios. O minério de ferro tem importância histórica como, por exemplo, o uso deste mineral como suporte para a Revolução Industrial.
Fim de Uma Era?
Com uma baixa de 40% em 2014, há quem diga o minério de ferro vive o fim de sua era dourada. A cotação de US$ 81,90 registrada no dia 11/09/2014 no mercado à vista chinês foi a menor desde 22 de setembro de 2009, ano marcado pelos efeitos da crise financeira global. Iniciada no final de agosto, a sequência de baixas do minério é provocada por aumento na oferta do produto e por uma expansão mais lenta da demanda na China.
Para alguns analistas, a queda não está relacionada apenas aos soluços da demanda chinesa, mas também a um novo perfil de produção. "Na nossa visão, 2014 é o ponto de inflexão onde novas capacidades finalmente alcançam o crescimento da demanda, e as margens de lucro começam uma reversão ante a média histórica. Em outras palavras, o fim da era do ferro chegou", diz Christian Lelong, analista do Goldman Sachs, em relatório.
O analista se refere aos novos projetos de grandes mineradoras, que, nos últimos anos, investiram bilhões visando o baixo custo. Assim como a brasileira, outras mineradoras investiram em projetos com logística integrada para reduzir os custos e garantir mercado. São elas que devem prevalecer na nova era do setor, pois os preços não devem voltar aos US$ 130 do final de 2013.
Logística Deficiente
A forte queda nos preços do minério de ferro acentuou a preocupação de que mineradoras sem logística integrada possam ter comprometidos projetos de expansão e reduzam os embarques da commodity. Um grupo de empresas que inclui grandes siderúrgicas como Gerdau, Usiminas e ArcelorMittal, além das mineradoras Ferrous e MMX, comprometeram entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões para aumentar a produção de minério de ferro em Minas Gerais. Mas, no atual cenário de preços, essas empresas poderão ter que rever a sua posição se as cotações não se recuperarem e se não houver um ajuste nos preços dos serviços logísticos para exportar.

A logística é fundamental na mineração. Empresas que não contam com uma estrutura própria de ferrovia e porto ligando-se às minas são obrigadas a operar com custos mais altos e, em cenário de queda nos preços, perdem competitividade. Nas contas do Goldman Sachs, as mineradoras sem logística própria gastam cerca de US$ 32 por tonelada para colocar o minério de ferro nos navios, na costa brasileira, mais US$ 24 por tonelada de frete marítimo. A estimativa do Goldman Sachs é de que Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Usiminas e Gerdau teriam perdas exportando no nível de preços atuais da commodity.
A Vale tem um custo de produção até o porto na faixa de US$ 22 por tonelada e seu minério chega aos portos da China, o principal mercado consumidor da empresa, em torno de US$ 46 por tonelada considerando o frete marítimo atual de US$ 24 por tonelada. Para o Goldman Sachs, só a Vale, entre as mineradoras brasileiras, poderá gerar fluxo de caixa operacional positivo com os atuais preços do minério de ferro. Já o Citi afirmou que somente Vale e CSN têm logística integrada para cobrir todos os custos de maneira sustentável no atual patamar de preços abaixo de US$ 90 por tonelada.
O Citi informou também que a entrada em operação do Porto Sudeste, em Itaguaí (RJ), poderá reduzir marginalmente os custos para MMX, Usiminas e Gerdau, entre outros exportadores. Segundo o Goldman Sachs, excluindo Vale e Samarco (controlada de pelotização), as pequenas e médias mineradoras representaram 16% das exportações de minério de ferro do país no primeiro semestre do ano.
Desvantagem em Relação aos Pares
O mercado de fretes marítimos para o minério de ferro entre o Brasil e a China, hoje na faixa de US$ 24 por tonelada, tem se mantido estável nos últimos meses, mas, no médio prazo, o cenário é de alta. "A tendência do frete para os próximos anos é crescente", disse José Carlos Martins, diretor de ferrosos e estratégia da Vale. Para a mineradora, mais importante do que o número absoluto, porém, o que conta é a diferença em relação à Austrália, onde estão suas principais concorrentes: Rio Tinto e BHP Billiton.
Os australianos têm um custo de cerca de US$ 9 a tonelada para transportar o minério de ferro até o mercado chinês. Isso faz com que a diferença em relação ao Brasil fique atualmente na casa de US$ 15 por tonelada. A China é o principal mercado para o minério de ferro da Vale e responde por cerca de 50% das vendas.
Em 2008, houve meses em que o frete Brasil-China para o minério de ferro chegou a US$ 100 por tonelada, enquanto o custo da Austrália era de US$ 40 por tonelada. O diferencial naquele período chegou, portanto, a US$ 60 por tonelada no mercado "spot" (à vista).
A Vale tem trabalhado para "minimizar" o diferencial de fretes com a Austrália, embora não vá conseguir igualar a relação de custos por uma questão geográfica. A mineradora brasileira montou uma estratégia logística para chegar à Ásia de forma mais competitiva: construiu um centro de distribuição em Omã, na Península Arábica, e deve concluir uma instalação semelhante na Malásia, no Sudeste asiático, até o fim do ano. Nas Filipinas, a empresa conta com duas estações de transferência.
Toda essa estrutura logística permite à Vale atingir os mercados da Ásia e Oriente Médio com os mineraleiros Valemax, com capacidade individual de 400 mil toneladas, armazenar e redistribuir o minério de ferro até o destino final em navios menores. Até agora, os Valemax atracaram nos portos de Taranto (Itália), Roterdã (Holanda), Oíta e Kimitsu (Japão), Mindanao (Filipinas), Sohar (Omã) e Ponta da Madeira e Tubarão (Brasil), além de operações nas estações flutuantes de transferência nas Filipinas.
Esse modelo logístico vem sendo desenvolvido enquanto a Vale aguarda para chegar à China com os Valemax, hoje sem autorização para atracar nos portos chineses. A longo prazo, a empresa também planeja montar centros de distribuição na China.
Os portos chineses concedem autorizações para navios de até 350 mil toneladas, segundo Martins. Mas quando a Vale decidiu investir nos Valemax havia uma regulamentação geral que permitia a entrada dos navios. Cabia ao porto decidir se a embarcação poderia atracar ou não. Em uma fase posterior, essa decisão passou a ser tomada pelo governo central da China.
Até hoje, só dois Valemax atracaram em portos chineses em condições especiais, carregados com volumes menores e com adaptações. A pressão contra os Valemax partiu de armadores locais que encaram a Vale como concorrente, visão que a empresa considera inapropriada, pois parte do transporte é feito em navios alugados das próprias companhias de navegação chinesas.
Valemax
A Vale informou na sexta-feira última ter firmado acordo com a China Ocean Shipping Company(Cosco) [COSCO.UL] para cooperação estratégica no transporte marítimo de minério de ferro, um movimento que pode ajudar a mineradora brasileira a resolver um custoso embargo de dois anos da China aos navios gigantes Valemax.
Pelo acordo, quatro navios VLOCs com capacidade de 400 mil toneladas, que atualmente pertencem e são operados pela Vale, serão transferidos para a Cosco e afretados para a Vale em contrato de 25 anos. A companhia também deve assinar um contrato de afretamento de longo prazo com a Cosco para transportar minério de ferro do Brasil por dez novos navios Valemax, que serão construídos pela Cosco. O acordo é parte de um contínuo esforço da Vale para poder se concentrar no negócio de mineração.
A proibição para a Vale atracar seus grandes navios nos portos chineses tem frustrado as tentativas da mineradora de reduzir os custos de frete e competir com rivais australianas, como BHP Billiton e Rio Tinto, que estão mais perto de China. Armadores chineses se opuseram ao acesso para os grandes navios da Vale, dizendo que eles poderiam agravar uma oferta excedente de embarcações.
Impactos em Minas
A queda de preço do ferro já é sentida nas cidades de Minas Gerais onde a mineração é importante fonte da economia. No Estado, os repasses da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem) caíram 29% de janeiro a julho deste ano. Mas, em cidades como Itabira, maior produtora de ferro, a queda foi ainda mais acentuada e ficou em 62,1%.
Na cidade, o prefeito Antônio Carlos Noronha Bicalho (PDT) já havia se reunido antes do fim do primeiro semestre com seus secretários para pedir o corte de gastos na prefeitura. Medidas parecidas foram adotadas em Nova Lima, onde no semestre a arrecadação com o minério caiu 35,2%, e em Brumadinho, cuja queda foi de 33,4%.
De acordo com a Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig), as cidades mineradoras têm até 85% do orçamento dependente dos impostos e contribuições gerados pela mineração. Além da contribuição pela exploração do solo por grandes companhias, são muitos funcionários e empresas que dependem do setor para sobreviver.
Mercados
Na BM&FBovespa, as ações das siderúrgicas estão entre as maiores quedas do Ibovespa em 2014. O baixo preço da commodity agrava a situação dessas companhias, que sofrem com a desaceleração da demanda por aço no país. As ações da Usiminas amargam perda de 42,5% no ano, os papéis da CSN caem 31,8% e os da Gerdau, 29,6%. A Vale acumula queda de 20,8%, enquanto o Ibovespa sobe 13,9%.
Pequeno Suspiro
Os preços à vista do minério de ferro registraram ontem (15/09/2014) a maior alta diária desde março, com preços mais firmes do aço na China impulsionando uma recuperação ante as recentes mínimas de cinco anos. Houve uma enxurrada de negócios no mercado à vista em plataformas de negociação, com vendedores elevando os preços em meio à firmeza dos mercados futuro.
O minério com teor de 62 por cento de ferro para entrega imediata, uma referência para o mercado na China, subiu 3,9 por cento, para 85,20 dólares por tonelada, ampliando a alta de 0,4 por cento de sexta-feira, segundo dados do Steel Index.
O quarto trimestre costuma ser um período de recomposição de estoque. Espera-se uma pequena recuperação, portanto este pode ser o começo disso, embora as perspectivas ainda sejam frágeis. Ainda há nervosismo, especialmente sobre o setor de construção civil na China.
Fontes:
Notícias de Mineração
Exame
Uol