sexta-feira, 29 de maio de 2020

Tramontina: O Porteiro de Puteiro que se Tornou um dos Maiores Empresários do Brasil

Embrenhado nos cafundós do Judas, num lugar de difícil aceso e  retirado a dois dias de mula do centro comercial mais próximo, existia um pequeno povoado, de moradores muito humildes, lugar esquecido e de pouco interesse dos políticos, cuja única fama, que mais o denegria do que o exaltava, era a existência de um puteiro que recebia homens de toda a região.

Foi neste ambiente caboclo que nasceu Valentin, um gauchinho filho de mãe solteira, que logo após o nascimento a mãe veio a falecer. O rebento foi adotado por compaixão pelas prostitutas colegas de labuta da mãe falecida. O menino cresceu e, criado neste fim de mundo em ambiente tão adverso, não recebeu das mães de criação a possibilidade de frequentar uma escola. Assim, não aprendeu a ler nem escrever e já rapaz não aprendeu outra atividade ou profissão senão servir de guarda na portaria da pequena casa de diversão.

Um dia, entrou como novo gerente do puteiro um sujeito cheio de ideias, e assim decidiu modernizar o estabelecimento. Planejou as mudanças e chamou os funcionários e funcionárias para passar as novas instruções. Ao porteiro disse:

– A partir de hoje, o senhor, além de ficar na portaria, vai preparar um relatório semanal onde registrará a quantidade de clientes e seus comentários e reclamações sobre nossos serviços.
– Eu adoraria fazer isso, senhor. Mas eu não sei ler nem escrever!
– Ah! Quanto eu sinto! Mas se é assim, já não poderá seguir trabalhando aqui.
– Mas senhor, não pode me despedir, eu trabalhei aqui a minha vida inteira, não sei fazer outra coisa.
– Olhe, eu compreendo, mas não posso fazer nada pelo senhor. Vamos dar-lhe uma boa indenização e espero que encontre algo que fazer. Eu sinto muito e que tenha sorte.

Sem mais nem menos, deu meia volta e foi embora. O porteiro sentiu como se o mundo desmoronasse. Que fazer? Lembrou que no prostíbulo, quando quebrava alguma cadeira ou mesa, ele a consertava, com cuidado e zelo. Pensou que esta poderia ser uma boa ocupação até conseguir um emprego. Mas só contava com alguns pregos enferrujados e um alicate mal conservado. Usaria o dinheiro da indenização para comprar uma caixa de ferramentas completa.

Como o povoado não tinha casa de ferragens, deveria viajar dois dias em uma mula para ir ao povoado mais próximo para realizar a compra. E assim o fez. No seu regresso, um vizinho bateu à sua porta:

– Venho perguntar se você tem um martelo para me emprestar.
– Sim, acabo de comprá-lo, mas eu preciso dele para trabalhar … já que..
– Bom, mas eu o devolverei amanhã bem cedo.
– Se é assim, está bom.

Na manhã seguinte, como havia prometido, o vizinho bateu à porta e disse:

– Olha, eu ainda preciso do martelo. Porque você não o vende para mim?
– Não, eu preciso dele para trabalhar e além do mais, a casa de ferragens mais próxima está a dois dias de viagem sobre a mula.
– Façamos um trato – disse o vizinho.

Eu pagarei os dias de ida e volta mais o preço do martelo, já que você está sem trabalho no momento. Que lhe parece?

Realmente, isto lhe daria trabalho por mais dois dias…. aceitou.Voltou a montar na sua mula e viajou.
No seu regresso, outro vizinho o esperava na porta de sua casa.

– Olá, vizinho. Você vendeu um martelo a nosso amigo.

Eu necessito de algumas ferramentas, estou disposto a pagar-lhe seus dias de viagem, mais um pequeno lucro para que você as compre para mim, pois não disponho de tempo para viajar para fazer compras.Que lhe parece?

O ex-porteiro abriu sua caixa de ferramentas e seu vizinho escolheu um alicate, uma chave de fenda, um martelo e uma talhadeira. Pagou e foi embora. E nosso amigo guardou as palavras que escutara: ‘não disponho de tempo para viajar para fazer compras’.

Se isto fosse certo, muita gente poderia necessitar que ele viajasse para trazer as ferramentas. Na viagem seguinte, arriscou um pouco mais de dinheiro trazendo mais ferramentas do que as que havia vendido. De fato, poderia economizar algum tempo em viagens. A notícia começou a se espalhar pelo povoado e muitos, querendo economizar a viagem, faziam encomendas.

Agora, como vendedor de ferramentas, uma vez por semana viajava e trazia o que precisavam seus clientes. Com o tempo, alugou um galpão para estocar as ferramentas e alguns meses depois, comprou uma vitrine e um balcão e transformou o galpão na primeira loja de ferragens do povoado.

Todos estavam contentes e compravam dele.Já não viajava, os fabricantes lhe enviavam seus pedidos. Ele era um bom cliente. Com o tempo, as pessoas dos povoados vizinhos preferiam comprar na sua loja de ferragens, a ter de gastar dias em viagens.

Um dia ele lembrou de um amigo seu que era torneiro e ferreiro e pensou que este poderia fabricar as cabeças dos martelos.E logo, por que não, as chaves de fendas, os alicates, as talhadeiras, etc… E após foram os pregos e os parafusos… Em poucos anos, nosso amigo se transformou, com seu trabalho, em um rico e próspero fabricante de ferramentas.

Certo dia decidiu doar uma escola ao povoado. Nela, além de ler e escrever, as crianças aprenderiam algum ofício. No dia da inauguração da escola, o prefeito lhe entregou as chaves da cidade, o abraçou e lhe disse:

– É com grande orgulho e gratidão que lhe pedimos que nos conceda a honra de colocar a sua assinatura na primeira página do livro de atas desta nova escola.
– A honra seria minha – disse o homem. Seria a coisa que mais me daria prazer, assinar o livro, mas eu não sei ler nem escrever, sou analfabeto.
– O Senhor?!?! – Disse o prefeito sem acreditar. O senhor construiu um império industrial sem saber ler nem escrever? Estou abismado. Eu pergunto:
– O que teria sido do senhor se soubesse ler e escrever?
– Isso eu posso responder. – Disse o homem com calma.
Se eu soubesse ler e escrever… ainda seria o PORTEIRO DO PUTEIRO!!!

Lição desta história:  Geralmente as mudanças são vistas como adversidades e obstáculos, principalmente quando estamos em zonas de conforto. Mas estas adversidades podem ser bênçãos. As crises estão cheias de oportunidades. Se alguém lhe fechar as portas, não gaste energia com o confronto, procure janelas para abrir.

Valentin Tramontina: O Porteiro do Puteiro

 

Essa história é atribuída a um grande industrial chamado Valentin Tramontina, fundador da Tramontina, que hoje tem 7.000 empregados e produz 18.000 itens que vão desde colheres de mesa a sofisticadas ferramentas e exporta para mais de 120 países. A cidadezinha é Carlos Barbosa e fica no interior do Rio Grande do Sul.

valentin tramontina porteiro de puteiro

Quase todo mundo que lê este conto fica emocionado e inspirado com a história de superação e sucesso do protagonista. Mas esta bela história é fantasiosa e foi elaborada por alguém para dar uma lição motivadora. Valentin nunca foi porteiro de prostíbulo. Era um colono artesão, oriundo de Santa Bárbara, interior do município de Bento Gonçalves, filho da imigrantes italianos da aldeia de Poffabro, município de de Frisanco, na região do Friuli-Venezia Giulia, nordeste da Itália.

Tramontina

 

A história da Tramontina começa em 1911, quando Valentin Tramontina chega à cidade de Carlos Barbosa, no Rio Grande do Sul, para montar o seu próprio negócio. Das mãos deste filho de italianos, natural de Santa Bárbara (RS), nasce a ferraria Tramontina: uma pequena oficina estabelecida em um terreno alugado.

Após cumprir o serviço militar obrigatório, Valentin retoma suas atividades e investe no futuro, transferindo a empresa para um galpão maior. Terra e mata, algum instrumento de trabalho, foi o início do barraco provisório, do esquartejo do pinheiro, da derrubada da mata, da construção da casa definitiva, dos cercados, galpões e as plantações.

Para o imigrante que deixou a Itália no final do século 19, o principal anseio era a propriedade da terra. O contato com a Revolução Industrial ocorrido na Europa foi de grande valia para o colono italiano. O trabalho na fábrica, ainda que temporário, o familiarizou com o novo modo de produzir. Algumas máquinas, fruto da revolução industrial, foram trazidas pelos imigrantes.

Saber como as máquinas eram produzidas era um atalho para a produção de novas ferramentas e artefatos. Tudo o que escrevemos até agora é para dizer que a família Tramontina tinha em seu sangue o destemor da maioria dos imigrantes que aportaram nessa região inóspita e ingrime do estado mais meridional do Brasil.

Ao chegar na região colonial do Rio Grande do Sul, o imigrante trazia o conhecimento de algumas atividades e as precondições para a produção de outras. Eram extremamente engenhosas.Um córrego, a ser canalizado, em todo ou em parte, foi a grande engenhosidade dos imigrantes. A roda d’água foi o embrião da metalurgia da região.

Valentin Tramontina, em 1911, montou sua ferraria na então vila de Carlos Barbosa. A família de Valentin morava em Santa Bárbara, localidade pertencente ao município de Bento Gonçalves, atualmente fazendo parte do município de Monte Belo do Sul, e lá fabricava ferramentas agrícolas.

Valentin veio a Carlos Barbosa porque a chegada da ferrovia significava perspectiva de expansão. Até 1930, a produção da ferraria era modesta. Valentin prestava serviços a empresas, entre elas Arthur Renner, proprietário de uma refinaria de banha, onde eram abatidos mais de 150 suínos por dia. Fazia consertos nas empresas e fabricava facas e canivetes. Podia ser considerado um ferreiro urbano.

Em 1924, a empresa de Arthur Renner se transfere para Montenegro. A partir de então, ocorrem algumas mudanças na linha de produção. O tradicional cabo de madeira das facas e canivetes é substituído pelo cabo de chifre, e vários modelos são lançados, entre eles um denominado "Santa Bárbara".

fabrica tramontina

Em 1932, Valentin agrega os primeiros colaboradores. São pessoas que residem na vila, trabalham na agricultura em tempo parcial e começam a fazer facas e canivetes nos porões de suas casas.

Valentin Tramontina, nascido em 1893, falece com 46 anos de idade, no ano de 1939. A partir daí, assume a ferraria, dona Elisa Tramontina, esposa de Valentin, que desponta como uma empreendedora nata e arrojada. Ela é quem embarca no trem da estação da vila de Carlos Barbosa e vai vender a produção nos mercados regionais e na capital do Estado.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), caso não existisse a determinação e a coragem de Elisa, a ferraria teria sucumbido.

O ano de 1949 pode ser considerado um marco na história do Grupo. Trata-se da data em que Ruy José Scomazzon, barbosense de 20 anos, amigo de Ivo Tramontina, cursando a Faculdade de Ciências Econômicas da PUC – Porto Alegre, começa a prestar assessoria à Tramontina. Ruy, com espírito de liderança, implanta planos ambiciosos, enfatizando a organização em todos os setores. Inaugura-se uma nova etapa. O caráter artesanal dá lugar a uma produção manufatureira.

Na década de 50, a empresa contava com 30 empregados e alguns representantes comissionados espalhados pelo Estado.

Os canivetes representavam 90 por cento do faturamento. Vem da Itália a tradição de ter no bolso um canivete, cuja denominação é "brítola". Trata-se de um canivete com formato de pequena foice utilizado principalmente na poda da parreira, para cortar vime. A Tramontina sempre se destacou na fabricação deste canivete. A empresa se capitaliza rapidamente, com inovações tecnológicas: laminadores, marteletes, máquinas de esmerilhar e forjar, que dinamizam a produção em série.

Com a presença do governador Ildo Meneghetti, em dezembro de 1956, foi inaugurada a ampliação das instalações da empresa e o novo escritório. Intensifica-se a produção de facas e ferramentas agrícolas. O ano de 1958 marca a fundação da Metalúrgica Forjasul, em Porto Alegre, e posteriormente transferida para Canoas.

Em 1961 falece a grande baluarte Elisa Tramontina. As décadas de 60 e 70 são marcadas pela instalação de empresas do Grupo em Garibaldi, Farroupilha e na Bahia, e também pela admissão de novos empregados.

A história de sucessão começou em 1949, quando Ivo Tramontina seguiu os passos do pai e passou a comandar o negócio, junto com seu amigo, Ruy J. Scomazzon. Nas décadas seguintes, a dupla foi responsável por expandir o empreendimento e levar a Tramontina para cerca de 120 países.

A tradição da família continuou quando Clóvis Tramontina, filho de Ivo, deu sequência aos negócios, assumindo, em 1992, a presidência da companhia. Mas ele não caiu de paraquedas no cargo. Antes de alcançá-lo, foi preparado para isso. Passou por vários setores da empresa e estudou, se formando em Administração e fazendo alguns outros cursos depois, como pós-graduação e MBA.

loja tramontina

Houve um salto gigantesco. Dos 30 empregados existentes em 1950, a empresa passou a ter em seu quadro 557 funcionários no final dos anos 60. Hoje o Grupo emprega quase 7.000 pessoas, exporta para mais de 120 países e é uma marca conhecida no mundo inteiro. Nas suas 10 unidades produz mais de 18 mil itens. A organização das fábricas se dá da seguinte forma:

  1. Tramontina Belém, localizada na cidade de Belém/PA, produz móveis de madeira para áreas internas e externas, utilidades domésticas e cabos para ferramentas.
  2. Tramontina Cutelaria, localizada na cidade de Carlos Barbosa/RS, produz facas de cozinha, profissionais e esportivas, utensílios de cozinha, talheres para uso diário, panelas, frigideiras, formas e assadeiras, tesouras, potes plásticos, uma linha infantil e uma linha de produtos e acessórios para churrasco.
  3. Tramontina Delta, localizada na cidade de Recife/PE, produz mesas, cadeiras, brinquedos, estantes, vasos, lixeiras, caixas organizadoras, gaveteiros e poltronas de plástico injetado ou rotomoldado.
  4. Tramontina Eletrik, localizada na cidade de Carlos Barbosa/RS, produz tomadas, interruptores, disjuntores, duchas, extensões, conduletes, acessórios para eletrodutos, aparelhos à prova do tempo, iluminação, injeção de alumínio sob encomenda e produtos para atmosferas explosivas.
  5. Tramontina Farroupilha, localizada na cidade de Farroupilha/RS, produz panelas, talheres e uma linha para servir de aço inoxidável, cozinhas profissionais e eletroportáteis.
  6. Forjasul Canoas, localizada na cidade de Canoas/RS, produz morsas, machados, marretas, ganchos para içamento de cargas, forjados sob encomenda e ferragens eletrotécnicas para linhas de transmissão e subestações de alta e extra-alta tensão e para redes aéreas de distribuição de energia elétrica.
  7. Tramontina Garibaldi, localizada na cidade de Garibaldi/RS, produz ferramentas industriais e organizadores metálicos para o setor industrial e automotivo, ferramentas profissionais para a construção civil e ferramentas manuais para uso doméstico.
  8. Forjasul Madeiras, localizada na cidade de Encruzilhada do Sul/RS, produz painéis de pinus, prateleiras retas e de canto, estantes e utilidades domésticas.
  9. Tramontina Multi, localizada na cidade de Carlos Barbosa/RS, produz equipamentos dirigíveis, ferramentas e equipamentos para jardinagem, agricultura e construção civil.
  10. Tramontina TEEC, localizada na cidade de Carlos Barbosa/RS, produz tanques, pias/cubas, coifas, cooktops, fornos, lixeiras, cachepôs e acessórios.

Fonte



domingo, 10 de maio de 2020

A Filosofia do Chaves: Não Tenha Nada para não Ter Nada a Perder! Só Assim Você Será Livre.

Um tema pelo qual tenho me interessado muito é a Intersubjetividade: a capacidade do homem de se relacionar com o seu semelhante. Jean-Paul Sartre resumiu seu ponto de vista sobre este assunto em uma frase presente na sua peça de teatro Entre Quatro Paredes: “o inferno são os outros”.

Para Sartre, a principal característica do homem é a sua liberdade fundamental. Sendo assim, mesmo alguém mantido sob a pior forma de dominação, no fundo permanece livre em seu ser, em sua consciência. Em outras palavras, um homem jamais conseguirá dominar completamente o outro.

Isto explica, em parte, porque as relações humanas são em geral conflituosas: na presença do outro há um confronto entre minha liberdade e a dele. E porque o outro também é livre, não podemos controlar o que ele pensa e o que ele nos diz. Porém, ao mesmo tempo preciso dele, de seu olhar crítico, ainda que, muitas vezes, esse olhar veja algo em nós que não gostamos.

Esta questão da liberdade dos indivíduos me remete a uma entrevista que vi recentemente no Youtube do Mario Sérgio Cortella. Neste vídeo, o professor discorreu sobre o conceito de ética e liberdade fazendo um paralelo com o seriado Chaves. Irei transcrever na íntegra a sua fala para que o leitor não perca nenhum detalhe:

"No contexto da discussão sobre ética. Você tem que lembrar que o Chaves, o personagem da TV, ele é alguém que se inspirou num pensador clássico chamado Diógenes. Diógenes foi um filósofo grego pós-socrático que morava num barril. Tal como Sócrates viveu solto na praça, discutindo, e o Chaves mora num barril, Diógenes, que era um alguém da escola cínica na Filosofia, morava num barril e vivia nu. Aliás, porque ele não tinha propriedade alguma pra não ser propriedade de nada. Se você já observou na série “Chaves”, ninguém tem animal de estimação naquela vilinha, porque o único ser ali que é um animal de estimação é o próprio Chaves. Segundo, é o único que é livre, o único que pode dizer o que quer, ele não tem nada a perder."


O Cortella só cometeu um pequeno equívoco pois o Chaves não mora no barril segundo palavras dele mesmo:

"Eu não moro no barril, eu só entro no barril porquê... bem, você sabe... pra... "
"Só por esporte."
"Isso!"
(Diálogo entre Chaves e Kiko)


Bom fim de semana a todos!

Ah, abaixo a entrevista citada...