Consulta rápida ao Wikipédia: Homo homini lupus é uma sentença latina que significa: o homem é o lobo do homem. Foi criada por Plauto (254-184) em sua obra Asinaria. Bem mais tarde foi popularizada por Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVIII.
A expressão “o homem é o lobo do homem” pode ter os mais diversos significados. Atrevo-me a dizer que o homem, no alto da sua “superioridade”, por motivos histórico-sociais, acaba por denegrir, ridicularizar, humilhar e tentar diminuir um indivíduo da própria raça.
Após a vitória do Santos diante do Grêmio na quinta-feira última, na Arena Grêmio, em duelo válido pelas oitavas de final da Copa do Brasil, o goleiro Aranha deixou o gramado acusando a torcida gaúcha de racismo. Segundo o jogador, torcedores do Grêmio xingaram de “preto fedido”.
As câmeras de televisão da ESPN Brasil registraram o momento em que os torcedores imitam macaco em coro das arquibancadas para provocar o jogador. O mais curioso é que pelas imagens da TV podemos ver, no grupo de torcedores, várias pessoas negras se manifestando. Além disso, as imagens mostram uma torcedora xingando o goleiro de macaco.
Horas depois, como não podia deixar de ser, a garota foi bombardeada nas mídias sociais com frases do tipo: "é uma vaca", "é uma branquela horrorosa", "é uma desgraçada" bla, bla, bla... e também os próprios gremistas foram vítimas de insultos como: "os homens do sul não gostam de aranha" e bla bla bla. Ou seja, insultos gerando insultos, discriminação racial gerando homofobia, uma verdadeira guerra entre pessoas.
Fatos Recentes
Não é de hoje que estamos vendo pelos noticiários estes lamentáveis episódios no futebol e também em outras esferas da sociedade. Recentemente, a jornalista potiguar Micheline Borges fez um comentário em sua página pessoal no Facebook sobre a aparência de médicos cubanos que chegaram ao Brasil. A postagem ganhou repercussão nacional e fez com que a jornalista apagasse o perfil nas redes sociais.
Para ela, a postagem não foi preconceituosa. Mas a opinião pública logo se espalhou pelas redes sociais. Muitos internautas reproduziram a postagem e fizeram comentários criticando a frase da jornalista, que mesmo assim continuou se defendeu na rede social durante algumas horas.
"Se eu chegar numa consulta e encontrar um médico com cara de acabado ou num escritório de advocacia e o advogado mal vestido vou embora", comparou, antes de encerrar a conta no Facebook.
Se você leitor é negro, tenho certeza que já foi vítima de algum tipo de discriminação racial na vida. Eu não sou negro, mas sou mestiço e tenho muitos parentes que são negros. E a pergunta que não quer calar é: quando este tipo de comportamento irá acabar?
Cada um terá sua resposta a esta pergunta, a minha é: “daqui décadas, séculos ou mesmo milênios quando a raça humana será extinta”. Meu pensamento pessimista vem da minha constatação de que o ser humano está em uma guerra permanente, invisível, velada e subestimada. Sou partidário do pensamento de Hobbes que desmonta o valor retórico da liberdade e da igualdade. Para ele, a igualdade leva à guerra de “todos contra todos”.
No lamentável episódio da partida de futebol, esporte este que vez ou outra transforma os estádios em campos de batalha, dentro e fora do gramado, a torcedora não admite que seu time apresentou menor desempenho no campo e parte para o ataque com a única arma que tem naquele momento: “seu grito inflamado”. Grito este que não é articulado pela razão e sim pela emoção, sendo esta o resultado de anos e anos de distorções sociais introjetadas na sua mente.
Conceituação
"Racismo" é um termo amplo utilizado para descrever variados tipos de crenças e atos que negam a igualdade fundamental de todos os seres humanos, em função da percepção de diferenças de "raça", ascendência, cor ou aparência.
A maioria das pessoas usa a idéia de raça, ou de aparência relacionada à raça, como maneira de identificar a si mesmos ou aos outros. Entretanto, a ciência nos ensina que existe apenas uma raça: a raça humana, ponto final!
A discriminação racial é o racismo em ação: Qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, ascendência ou origem nacional ou étnica que tenha como finalidade ou efeito anular ou impedir o reconhecimento, gozo ou exercício, em pé de igualdade, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social e cultural, entre outros, da vida pública.
História
O racismo, como o percebemos hoje, é algo relativamente recente na história na humanidade. Até por volta da Idade Média, os principais fatores de discriminação eram religiosos, políticos ou referentes à nacionalidade e à linguagem do indivíduo.
No século XV, quando os europeus desembarcaram na África, e principalmente com o início do tráfico negreiro, usaram a ciência a favor do colonialismo e desenvolveram teorias de superioridade evolutiva, baseadas em diferenças biológicas, que justificavam seus interesses de expansão e poder.
Estava criado o racismo etnocêntrico, fundamentado em doutrinas bíblicas, filosóficas e científicas que não resistiram à evolução dos tempos, mas que deixaram marcas indeléveis e profundas nas sociedades que as usaram para justificar a escravidão, como é o caso da sociedade brasileira.
O Racismo Invisível no Brasil
No final do século XIX, com a abolição da escravatura e ainda sob forte influência das teses de superioridade europeia, começa a ser colocado em prática um projeto de construção de uma nova nação brasileira, que deveria ser melhorada através do “embranquecimento” de seu povo.
Algumas décadas mais tarde, esta teoria lugar à da miscigenação, que acabou criando um dos mitos mais prejudiciais à luta contra o racismo: o mito da democracia racial. Foi ele que, durante décadas, impediu o Brasil de se tornar um país realmente democrático, com tratamento e oportunidade iguais para todos, ao negar reconhecimento a um problema que atinge mais da metade da nossa população.
Mas até hoje pessoas preferem dizer que não existe racismo no país (o pior cego é aquele que não quer ver). Telegramas entre diplomatas americanos e o governo dos Estados Unidos que o site Wikileaks vem vazando, dizem o contrário. Em um pacote de 25 telegramas da embaixada dos Estados Unidos em Brasília e do consulado em São Paulo redigidos entre 2004 e 2009, diplomatas americanos informaram ao seu governo que “Muitos (brasileiros) alegam que o racismo não existe, apesar das evidências esmagadoras do contrário“.
Provavelmente, os americanos, um dos povos mais racistas do mundo, fazem referência ao livro do diretor de jornalismo Ali Kamel: “Não somos racistas”. No livro, publicado em 2006 pela Nova Fronteira, o autor garante que não há discriminação racial no Brasil e que todos vivem em harmonia.
Escrito em plena batalha pela implantação das cotas nas universidades, o livro serviu como instrumento da direita para combater as políticas do governo Lula. Para o jornalista, o racismo não teria peso na cultura nacional e não contaria com o aval das instituições públicas e privadas. Nesse sentido, teorizava o autor, a implantação das cotas raciais teria um efeito inverso, negativo, estimulando o racismo. Eu particularmente tenho um outro ponto de vista para esta questão, mas seria assunto para outro post.
O Racismo no Inconsciente
Se hoje já se admite que o Brasil é um país racista, é preciso admitir também que nossos pensamentos e atitudes são condicionados por essa cultura e essa ideologia racista, pois crescemos introjetando e reproduzindo o que já está estabelecido socialmente.
Um estudo mostrou que as crianças são abertamente preconceituosas, e que essa característica perde força a partir da maturação das estruturas cognitivas que permitem que ela deixe de julgar as pessoas com quem se relaciona apenas pela aparência e passe a levar em conta conceitos como bondade ou amizade.
Mostrou também que o racismo, longe de desaparecer com a idade e a necessidade de socialização, caso não haja nenhuma iniciativa por parte de pais e/ou educadores, é introjetado e velado pelo aprendizado das normas sociais vigentes, passando a se manifestar de forma indireta e, em muitos casos, inconsciente.
Imperativos para o Crescimento Econômico
No mundo atual as forças globais emergentes concorrem para moldar o futuro. Algumas forças ameaçam dividir, empobrecer e criar "vencedores" e "perdedores", enquanto outras acenam com possibilidades de um futuro em que a inclusão torne-se uma necessidade econômica e prática para servir ao bem comum.
Não temos outra alternativa senão combater os efeitos negativos e tirar proveito dos aspectos positivos. Na economia global, a pobreza, a falta de saúde, o desemprego e a falta de acesso à escola para os indivíduos (negros e outros segregados em sua maioria) são obstáculos que atrasam a realização das metas do desenvolvimento nacional.
Estimativas recentes sugerem que Brasil, África do Sul e Estados Unidos poderiam ganhar um aumento conjunto de produtividade econômica equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) da 15a maior economia do mundo, se eliminassem a discriminação racial.
Cada uma das nações precisa dos talentos e habilidades dos negros e de outras pessoas menos favorecidas para poder competir efetivamente por investimentos e crescimento econômico no mercado global.
Fontes consultadas:
Artigo
Reportagem
Um blog sobre investimentos, economia, política, futebol e outros assuntos de butequim...
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quinta-feira, 4 de junho de 2020
domingo, 10 de maio de 2020
A Filosofia do Chaves: Não Tenha Nada para não Ter Nada a Perder! Só Assim Você Será Livre.
Para Sartre, a principal característica do homem é a sua liberdade fundamental. Sendo assim, mesmo alguém mantido sob a pior forma de dominação, no fundo permanece livre em seu ser, em sua consciência. Em outras palavras, um homem jamais conseguirá dominar completamente o outro.
Isto explica, em parte, porque as relações humanas são em geral conflituosas: na presença do outro há um confronto entre minha liberdade e a dele. E porque o outro também é livre, não podemos controlar o que ele pensa e o que ele nos diz. Porém, ao mesmo tempo preciso dele, de seu olhar crítico, ainda que, muitas vezes, esse olhar veja algo em nós que não gostamos.
Esta questão da liberdade dos indivíduos me remete a uma entrevista que vi recentemente no Youtube do Mario Sérgio Cortella. Neste vídeo, o professor discorreu sobre o conceito de ética e liberdade fazendo um paralelo com o seriado Chaves. Irei transcrever na íntegra a sua fala para que o leitor não perca nenhum detalhe:
"No contexto da discussão sobre ética. Você tem que lembrar que o Chaves, o personagem da TV, ele é alguém que se inspirou num pensador clássico chamado Diógenes. Diógenes foi um filósofo grego pós-socrático que morava num barril. Tal como Sócrates viveu solto na praça, discutindo, e o Chaves mora num barril, Diógenes, que era um alguém da escola cínica na Filosofia, morava num barril e vivia nu. Aliás, porque ele não tinha propriedade alguma pra não ser propriedade de nada. Se você já observou na série “Chaves”, ninguém tem animal de estimação naquela vilinha, porque o único ser ali que é um animal de estimação é o próprio Chaves. Segundo, é o único que é livre, o único que pode dizer o que quer, ele não tem nada a perder."
O Cortella só cometeu um pequeno equívoco pois o Chaves não mora no barril segundo palavras dele mesmo:
"Eu não moro no barril, eu só entro no barril porquê... bem, você sabe... pra... "
"Só por esporte."
"Isso!"
(Diálogo entre Chaves e Kiko)
Bom fim de semana a todos!
Ah, abaixo a entrevista citada...
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
Gratificação Postergada (A Chave do Sucesso) x Gratificação Imediata (A Chave do Fracasso)
Odisseia é a sequência de Ilíada e ambos são poemas épicos da Grécia Antiga atribuídos a Homero. Desde então, a palavra odisseia passou a significar, na maioria das línguas, qualquer viagem longa e difícil com características épicas (qualquer semelhança com a vida de cada um é mera coincidência).
Na Odisseia de Homero, este trecho exemplifica as dificuldades de se resistir às tentações da vida:
“Iniciada a viagem de volta, Odisseu e sua tripulação passaram pelas costas da Sicília, terra das sereias. As sereias eram ninfas marinhas que tinham o poder de enfeitiçar com seu canto todos que o ouvissem, de modo que os infortunados marinheiros sentiam-se irresistivelmente impelidos a correr para elas atirando-se no mar, onde encontravam a morte. Instruído por Circe, Odisseu ordenou que todos tapassem os ouvidos com cera. Curioso em ouvir o canto das sereias, mas não querendo correr perigo, pediu que o amarrassem no mastro, proibindo-os de soltá-lo sob qualquer pretexto, nem que ele próprio pedisse, até terem passado pela ilha. Essas instruções não foram inúteis, pois ao ouvir as doces vozes e as promessas sedutoras das sereias ele ordenou várias vezes que o soltassem; felizmente, os marinheiros não o fizeram. E assim todos conseguiram resistir, embora não facilmente, às tentações do canto das sereias.”
Marshmallows
Um famoso estudo do final dos anos 1960 realizado por Walter Mischel da Universidade de Stanford utilizou marshmallows para avaliar o comportamento de crianças pré-escolares no que diz respeito à gratificação imediata e à gratificação postergada. Se eles resistissem à tentação de comer um marshmallow, seriam recompensados com mais um doce alguns minutos depois. Algumas das crianças resistiram, outras não como pode ser visto no vídeo:
Um acompanhamento com os pais e professores dessas crianças, após alguns anos, revelou que aquelas que souberam aguardar pelo retorno do pesquisador se tornaram jovens mais seguros, decididos e bem-sucedidos. Tal experiência confirmou que pessoas pacientes, que conseguem aguardar os melhores momentos de uma situação para tomar ações, conseguem alcançar o sucesso com mais facilidade do que aquelas que são impulsivas e agem sem pensar.
Mais tarde, em 2011, cientistas fizeram um acompanhamento da pesquisa revisitando algumas das mesmas crianças, hoje adultos.
O estudo mostrou que as diferenças permanecem: os melhores em adiar a gratificação enquanto crianças continuam assim como adultos, e aqueles que queriam seus doces de imediato eram mais propensos a procurar gratificação instantânea quando adultos.
Além disso, imagens do cérebro mostraram diferenças fundamentais entre os dois grupos em duas áreas: o córtex pré-frontal e o estriado ventral.
“Esta é a primeira vez que localizamos as áreas específicas do cérebro relacionadas com a gratificação postergada. Isto poderia ter grandes implicações no tratamento da obesidade e de vícios”, diz o autor principal do estudo, o Dr. B. J. Casey.
No estudo atual, Casey recrutou 59 adultos que participaram quando crianças do estudo original. Como marshmallows são menos gratificantes para adultos, os pesquisadores realizaram outros testes.
Os resultados mostraram que o córtex pré-frontal do cérebro é mais ativo para quem espera a gratificação, e o estriado ventral, uma área ligada a vícios, era mais ativa em quem deseja gratificação imediata.
Os Problemas Financeiros dos Pobres e a Gratificação Imediata
Em estudo realizado por um grupo de pesquisadores e publicado no livro “Consumo na Base da Pirâmide” foi constatado que os problemas financeiros vividos pelas pessoas pobres originavam-se tipicamente de eventos inesperados que rompiam a linearidade do dia-a-dia. Como exemplo: desemprego, redução de renda, gravidez, separação, doença ou morte.O resultado era a inadimplência ou o pagamento da dívida.
A análise de relatos mostra uma sequência de eventos negativos que agravavam a situação:
Nilda: Prestações > desemprego > inadimplência > aumento da família > novo emprego com redução de renda > nome sujo
Juciara: Empréstimo para obra > desemprego > agiota > pagamento de dívida
Maria: Empréstimo para conserto da Kombi > roubo da kombi > perda do ganha-pão > agiota > ameaça de morte > venda da casa
Por que as pessoas pobres então não se encontram preparadas para esses eventos, que são, de certa forma, previsíveis?
Hipótese 1: Não há sobras o que impossibilita a poupança.
Para esta hipótese foi verificada uma incoerência no padrão comportamental dos entrevistados, pois ao mesmo tempo que afirmavam não terem sobras, utilizavam-se de cartões de prestações. Esta capacidade de pagas prestações e juros é chamada de “poupança invertida”, por mostrar a capacidade de fazer sobrar quando preciso. Em suma é a preferência do indivíduo de acumular bens em vez de poupar.
Hipótese 2: Consumismo ou Consumo compensatório.
Alguns autores observam que a inadimplência dos pobres encontra-se frequentemente associada a consumismo (gastar mais do que pode) ou consumo compensatório (adquirir bens como forma de compensar as dificuldades da vida). Porém os relatos dos entrevistados mostra que são os eventos inesperados (desemprego, doença, divórcio...) que geram o desequilíbrio financeiro.
Hipótese 3: Gratificação imediata x gratificação postergada.
Uma terceira explicação seria que as classes sociais mais baixas buscariam a gratificação imediata em detrimento da gratificação postergada. Porém, o estudo não constatou a dominância de visão de curto prazo. As pessoas faziam planos concretos para o futuro como adiar filhos ou privação de consumo para aquisição de casa própria. No entanto, não se descartou a gratificação imediata como tendo certo peso nas decisões dos entrevistados. A compra de bens a prestação pode ser tomada como evidência.
Em síntese, a gratificação imediata explicaria o fato das pessoas não acumularem reservas. No entanto, talvez a melhor explicação esteja associada às práticas de empréstimo comercial pelas lojas que não costumam conceder descontos por pagamentos à vista. Temos aqui uma das práticas mais perversas dos lojistas brasileiros: a inclusão sorrateira dos juros nos preços “à vista” dos produtos. Em 99% dos casos não há a opção de pagar à vista “com desconto” já que o preço parcelado é o mesmo do preço de parcela única, o que força o consumidor a absorver os juros escondido no preço à vista ou assumir uma divida de longo prazo em forma de pagamento parcelado. Mas isto é assunto para outro post...
Bom pessoal, espero que tenham gostado deste post, para pessoas que ainda não conheciam o teste do marshmallow pode ser algo realmente revelador.
Fontes consultadas:
Resenha Odisseia por Jolanda Gentilezza
Marshmallow test points to biological basis for delayed gratification
Consumo na Base da Pirâmide - Estudos Brasileiros
Na Odisseia de Homero, este trecho exemplifica as dificuldades de se resistir às tentações da vida:
“Iniciada a viagem de volta, Odisseu e sua tripulação passaram pelas costas da Sicília, terra das sereias. As sereias eram ninfas marinhas que tinham o poder de enfeitiçar com seu canto todos que o ouvissem, de modo que os infortunados marinheiros sentiam-se irresistivelmente impelidos a correr para elas atirando-se no mar, onde encontravam a morte. Instruído por Circe, Odisseu ordenou que todos tapassem os ouvidos com cera. Curioso em ouvir o canto das sereias, mas não querendo correr perigo, pediu que o amarrassem no mastro, proibindo-os de soltá-lo sob qualquer pretexto, nem que ele próprio pedisse, até terem passado pela ilha. Essas instruções não foram inúteis, pois ao ouvir as doces vozes e as promessas sedutoras das sereias ele ordenou várias vezes que o soltassem; felizmente, os marinheiros não o fizeram. E assim todos conseguiram resistir, embora não facilmente, às tentações do canto das sereias.”
Marshmallows
Um famoso estudo do final dos anos 1960 realizado por Walter Mischel da Universidade de Stanford utilizou marshmallows para avaliar o comportamento de crianças pré-escolares no que diz respeito à gratificação imediata e à gratificação postergada. Se eles resistissem à tentação de comer um marshmallow, seriam recompensados com mais um doce alguns minutos depois. Algumas das crianças resistiram, outras não como pode ser visto no vídeo:
Um acompanhamento com os pais e professores dessas crianças, após alguns anos, revelou que aquelas que souberam aguardar pelo retorno do pesquisador se tornaram jovens mais seguros, decididos e bem-sucedidos. Tal experiência confirmou que pessoas pacientes, que conseguem aguardar os melhores momentos de uma situação para tomar ações, conseguem alcançar o sucesso com mais facilidade do que aquelas que são impulsivas e agem sem pensar.
Mais tarde, em 2011, cientistas fizeram um acompanhamento da pesquisa revisitando algumas das mesmas crianças, hoje adultos.
O estudo mostrou que as diferenças permanecem: os melhores em adiar a gratificação enquanto crianças continuam assim como adultos, e aqueles que queriam seus doces de imediato eram mais propensos a procurar gratificação instantânea quando adultos.
Além disso, imagens do cérebro mostraram diferenças fundamentais entre os dois grupos em duas áreas: o córtex pré-frontal e o estriado ventral.
“Esta é a primeira vez que localizamos as áreas específicas do cérebro relacionadas com a gratificação postergada. Isto poderia ter grandes implicações no tratamento da obesidade e de vícios”, diz o autor principal do estudo, o Dr. B. J. Casey.
No estudo atual, Casey recrutou 59 adultos que participaram quando crianças do estudo original. Como marshmallows são menos gratificantes para adultos, os pesquisadores realizaram outros testes.
Os resultados mostraram que o córtex pré-frontal do cérebro é mais ativo para quem espera a gratificação, e o estriado ventral, uma área ligada a vícios, era mais ativa em quem deseja gratificação imediata.
Os Problemas Financeiros dos Pobres e a Gratificação Imediata
Em estudo realizado por um grupo de pesquisadores e publicado no livro “Consumo na Base da Pirâmide” foi constatado que os problemas financeiros vividos pelas pessoas pobres originavam-se tipicamente de eventos inesperados que rompiam a linearidade do dia-a-dia. Como exemplo: desemprego, redução de renda, gravidez, separação, doença ou morte.O resultado era a inadimplência ou o pagamento da dívida.
A análise de relatos mostra uma sequência de eventos negativos que agravavam a situação:
Nilda: Prestações > desemprego > inadimplência > aumento da família > novo emprego com redução de renda > nome sujo
Juciara: Empréstimo para obra > desemprego > agiota > pagamento de dívida
Maria: Empréstimo para conserto da Kombi > roubo da kombi > perda do ganha-pão > agiota > ameaça de morte > venda da casa
Por que as pessoas pobres então não se encontram preparadas para esses eventos, que são, de certa forma, previsíveis?
Hipótese 1: Não há sobras o que impossibilita a poupança.
Para esta hipótese foi verificada uma incoerência no padrão comportamental dos entrevistados, pois ao mesmo tempo que afirmavam não terem sobras, utilizavam-se de cartões de prestações. Esta capacidade de pagas prestações e juros é chamada de “poupança invertida”, por mostrar a capacidade de fazer sobrar quando preciso. Em suma é a preferência do indivíduo de acumular bens em vez de poupar.
Hipótese 2: Consumismo ou Consumo compensatório.
Alguns autores observam que a inadimplência dos pobres encontra-se frequentemente associada a consumismo (gastar mais do que pode) ou consumo compensatório (adquirir bens como forma de compensar as dificuldades da vida). Porém os relatos dos entrevistados mostra que são os eventos inesperados (desemprego, doença, divórcio...) que geram o desequilíbrio financeiro.
Hipótese 3: Gratificação imediata x gratificação postergada.
Uma terceira explicação seria que as classes sociais mais baixas buscariam a gratificação imediata em detrimento da gratificação postergada. Porém, o estudo não constatou a dominância de visão de curto prazo. As pessoas faziam planos concretos para o futuro como adiar filhos ou privação de consumo para aquisição de casa própria. No entanto, não se descartou a gratificação imediata como tendo certo peso nas decisões dos entrevistados. A compra de bens a prestação pode ser tomada como evidência.
Em síntese, a gratificação imediata explicaria o fato das pessoas não acumularem reservas. No entanto, talvez a melhor explicação esteja associada às práticas de empréstimo comercial pelas lojas que não costumam conceder descontos por pagamentos à vista. Temos aqui uma das práticas mais perversas dos lojistas brasileiros: a inclusão sorrateira dos juros nos preços “à vista” dos produtos. Em 99% dos casos não há a opção de pagar à vista “com desconto” já que o preço parcelado é o mesmo do preço de parcela única, o que força o consumidor a absorver os juros escondido no preço à vista ou assumir uma divida de longo prazo em forma de pagamento parcelado. Mas isto é assunto para outro post...
Bom pessoal, espero que tenham gostado deste post, para pessoas que ainda não conheciam o teste do marshmallow pode ser algo realmente revelador.
Nesta curta palestra na TED, Joaquim de Posada compartilha seu experimento sobre gratificação postergada. Ele mostra um vídeo impagável de crianças resistindo a comer o marshmallow, associando a autodisciplina ao sucesso.
Fontes consultadas:
Resenha Odisseia por Jolanda Gentilezza
Marshmallow test points to biological basis for delayed gratification
Consumo na Base da Pirâmide - Estudos Brasileiros
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Todos os Assuntos do Mundo...
Todos os assuntos, seja futebol, economia ou política, até mesmo os menos polêmicos como culinária e arte barroca, são discutidos em quatro salas: a dos chatos burros, a dos chatos inteligentes, a dos divertidos burros e a dos divertidos inteligentes. E isto sempre foi assim, desde que o mundo é mundo.
Por vaidade, a maior parte das pessoas acredita que está na sala dos divertidos inteligentes (opa, estou dentro, rs). Menos os chatos burros - aqueles que se orgulham da própria chatice - mas esses também se enganam ao achar que estão na sala dos chatos inteligentes. E no mundo das mídias sociais atuais, estes chatos burros que se acham chatos inteligentes recebem a singela denominação de Trolls.
Os Trolls são criaturas mitológicas originadas das lendas nórdicas, e que se tornaram parte do folclore da Escandinávia e norte da Europa. Geralmente são retratados como seres maus e perigosos, embora às vezes eles interajam pacificamente com as pessoas e anonimamente, na calada da noite, agem como legítimos perturbadores da ordem social.
Sendo assim, nos blogs e em outras mídias da Internet, os trolls são editores, na maior parte das vezes anônimos, que promovem tentativas deliberadas e intencionais de perturbar as atividades dos demais editores. O trollismo pode então ser considerado uma violação deliberada das regras implícitas de convivência social da internet.
Retornando à parábola inicial, das quatro salas, a mais respeitada é a dos chatos inteligentes. Porque os chatos inteligentes fundamentam tudo o que dizem, com muita coerência e perspicácia. Porém, a sala dos divertidos inteligentes são as mais populares, é lá que os assuntos fluem de forma leve, ponderada e despretensiosa. Por serem tão populares são então o maior alvo dos chatos burros. Raramente você verá chatos burros incursionando pelas salas dos chatos inteligentes, pois lá eles serão sempre desmascarados.
Frequentemente, a sala dos chatos burros estará vazia, pois os seus ocupantes estarão navegando pelas outras salas, na ânsia serem reconhecidos como chatos inteligentes. Então não se assuste se receber comentários mal educados no seu espaço de debate, são os chatos burros exercendo o que fazem de melhor. Não pense que são chatos inteligentes contribuindo com o seu debate, pois chatos inteligentes estão ocupados demais nas suas próprias salas.
Mas e a sala dos divertidos burros? Bom, esta é a sala por onde todos nós começamos, é a sala de passagem para as demais salas, pois nascemos burros porém divertidos. Ninguém nasce chato ou postulando teoremas. As pessoas se tornam chatas ao longo da vida. E não é porque você já está em uma das demais salas e lá deve permanecer. Sempre bom dar uma passadinha na sala dos burros divertidos pois desta forma os chatos têm a chance de se tornarem mais divertidos, os divertidos de se tornarem ainda mais inteligentes e os inteligentes de se tonarem ainda mais sábios.
E não terá fechamento mensal mesmo, agora sou um chato inteligente, rs.
Livre adaptação do texto As Quatro Salas publicado em 9/5/2003 por Alexandre Soares Silva no site Digestivo Cultural.
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