quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Mão Invisível nas "Privatizações"

Ontem foi publicado um excelente artigo no Mises Brasil sobre o tema privatizações que voltou à cena neste conturbado cenário eleitoral atual: Como as privatizações criaram novas estatais no Brasil. Vou me dar ao direito de reproduzí-lo na íntegra aqui no blog, porém de forma ilustrada.

Dias atrás já tinha postado aqui no blog um artigo sobre o mesmo tema que vale à pena ser relido com atenção. Sugiro também ao leitor interessado o podcast da entrevista Rio Bravo com o Sérgio Lazzarini que é estudioso deste tema.


Como as Privatizações Criaram Novas Estatais no Brasil

Em julho de 2014, a página oficial de Dilma Rousseff no Facebook comemorou a produção recorde de minério de ferro pela Vale. Segundo a página da presidente, a empresa "quebrou recorde histórico de produção de minério de ferro para o segundo trimestre", o que representou uma "alta de 12,6% em relação ao mesmo período de 2013?. 

Rapidamente, várias páginas apontaram para o "ato falho" de Dilma Rousseff, que teria celebrado o bom desempenho de uma empresa privatizada — supostamente anátema para o PT, sempre contrário a privatizações e particularmente contrário à venda da própria Vale em 1997.

Rodrigo Constantino, em seu blog no site da revista Veja, não perdeu tempo em apontar para a incoerência dilmista: "Seria um reconhecimento tardio de que a privatização da estatal, tão condenada pelo PT, foi boa afinal?"

 
Mas não havia qualquer incoerência da parte de Dilma nem do governo, porque a Vale é uma estatal. Isto é, a Vale, fundamentalmente, nunca deixou de ser controlada pelo estado brasileiro.

Não quero que reste qualquer dúvida, então vale repetir: ao contrário do que pensa o autor de Privatize Já, a Vale é literalmente comandada pelo governo do Brasil. Prova do fato foi a demissão do presidente Roger Agnelli da empresa em 2011 por pressão do próprio governo petista.

O acontecimento, amplamente noticiado na época, foi extremamente elucidativo. Ele mostrava não só a conexão próxima entre as grandes empresas e o governo brasileiro, mas também como temos uma compreensão absolutamente inadequada sobre o processo das privatizações no Brasil.

As "privatizações" no Brasil não foram marcadas por qualquer transferência ou pulverização de poder e controle econômico; elas, efetivamente, foram reestruturações corporativas que mudaram muito pouco a distribuição do controle econômico e modificaram o regime jurídico das empresas apenas o suficiente para que se tornassem economicamente viáveis novamente.

Evidentemente ocorreram melhorias técnicas e aumentos produtivos; é também evidente que esse era o objetivo inicial das reestruturações, que não incluía qualquer mudança substancial no controle acionário das empresas "vendidas". As privatizações brasileiras não foram uma maneira de livrar o estado do controle sobre empresas, mas foi a maneira que o estado brasileiro encontrou para manter o controle sobre elas.

A campanha eleitoral de 2014 conta com alguns candidatos que pretendem reavaliar os méritos das privatizações. Discutir as privatizações não é nada novo; a cada quatro anos há um novo ciclo de condenações a elas pontuadas por alguns elogios infundados. A realidade é que apoiadores e opositores das privatizações falam de processos ideais imaginários. Poucos falam da realidade das privatizações no Brasil: não foi "entreguismo", "privataria"; também não foi o ápice da "eficiência" e "enxugamento do estado". Foi uma reformulação do aparato estatal e a inclusão da classe corporativa em seus quadros.

A privatização da Vale

As estatais eram um modelo esgotado nos anos 1990 e o estado brasileiro estava falido depois de uma década de hiperinflação. A privatização das estatais foi incluída como um dos fatores para o sucesso do Plano Real, que incluía "zerar o déficit público". Essa zeragem do déficit público deveria incluir a receita dos leilões de empresas do governo.

A venda da Vale foi a maior privatização feita no Brasil e foi a que sofreu mais resistências — e, sim, o PT foi um dos partidos mais contrários, junto com grande parte da esquerda e de movimentos sociais. Para driblar as resistências, o estado brasileiro promoveu uma "coalizão de apoio", que consistia basicamente em formar novos grupos de investimento encabeçados por fundos de pensão estatais.

O BNDES patrocinou a formação da Valepar S.A., que controla o Conselho Administrativo da Vale, com 53,3% do capital votante. A Valepar é controlada por quatro fundos de pensão estatais, encabeçados pela Previ, que é o fundo dos funcionários do Banco do Brasil e maior fundo de pensão brasileiro, com 58% das ações. Além dos fundos de pensão, a Valepar ainda é controlada pelo Bradesco, pela multinacional Mitsui e pelo próprio BNDES, que possui 9,5% de suas ações.


Com a atuação do BNDES e a inclusão dos fundos de pensão estatais, o governo "viabilizava" as privatizações. E, assim, a nova Vale, privatizada em 1997 com dinheiro estatal, passou a ser controlada por fundos de pensão estatais e pelo BNDES. Desde o começo dos anos 2000, o BNDES e os fundos de pensão formam a rede de controle que não apenas comanda as empresas que deixaram de ser formalmente estatais, mas também colocam empresas nominalmente "privadas" (mesmo que não tenham sido estatais anteriormente) a serviço do governo.

Fundos de pensão e o controle dos sindicatos pelo estado

Os fundos de pensão, que foram criados nos anos 1970 para incentivar a poupança, se converteram na maior ferramenta de investimento do Brasil. Seu potencial de investimento, em 2010, já era de 300 bilhões de reais (16% do PIB), com perspectivas de crescimento.

Em montante de investimentos, considerados como um todo, os fundos de pensão são ainda mais representativos que o BNDES — que já é o maior banco de "desenvolvimento" do mundo, ainda maior que o Banco Mundial (em 2009-10, por exemplo, o Banco Mundial fez empréstimos de cerca de US$ 40 bilhões, menos da metade do que o BNDES fez).


A partir do final dos anos 1980, os fundos de pensão ganharam cada vez mais participação das lideranças dos sindicatos, principalmente por conta de algumas reformas que ocorreram na época de Fernando Henrique Cardoso que abriram a gestão para os trabalhadores. Líderes sindicais se converteram em gerentes de fundos de pensão.

A campanha de Lula em 2002 à presidência especificamente estimulava os trabalhadores a formarem esses fundos, não só como meio para aumentar o padrão de consumo dos trabalhadores, mas também para formarem blocos de controle em posições de investimento. Com isso, os fundos de pensão formados poderiam ser controlados pelo governo para direcionar políticas e "disciplinar" o capitalismo.

A unicidade e o imposto sindical do Brasil sempre ajudaram o estado nesse sentido, porque mantiveram os sindicatos sob a tutela governamental — o que jamais foi desafiado pelo governo petista. Não à toa, a partir do final dos anos 1980, os sindicatos brasileiros mais fortes (ligados às montadoras de carros no ABC paulista, por exemplo) passaram a adotar uma postura de "sindicalismo propositivo" ou "sindicalismo cidadão", que é contrário a choques entre trabalhadores e classes gerenciais e enfatiza a inserção dos próprios trabalhadores em posições de gerência.

A CUT e a Força Sindical, as maiores centrais sindicais do Brasil, representam perfeitamente esse paradigma e atuam como porta-vozes gerencialistas.

Assim, a legislação brasileira funciona como ferramenta para transformar os sindicatos monopolistas do país em instrumentos de política e controle econômico. Os maiores fundos de pensão do Brasil (Previ, Petros e Funcef) continuam sob controle direto do governo, assistindo funcionários do Banco do Brasil, da Petrobras e da Caixa Econômica. E com a conversão dos líderes sindicais (em sua maioria, componentes da Articulação, a tendência majoritária do PT) em gerentes de fundos de pensão, se tornando numa nova classe de managers, o governo ganhou acesso direto a esses fundos.


Em 2011, a revista Exame reportava como havia sido o processo de demissão de Roger Agnelli da presidência da Vale. "Roger, espera! Este é um assunto de acionistas. E está sendo tratado por nós, acionistas." Quem disse isso foi Ricardo Flores, então presidente da Previ, o fundo de pensão principal entre os controladores da Vale, na época da discussão da saída de Agnelli da posição por pressão do governo Dilma. Ironicamente, mais tarde ele foi afastado da presidência da Previ por conta de disputas por poder.

BNDES: privatizações estatais, estatizações privadas

O BNDES é o maior banco de desenvolvimento do mundo. Foi instrumental nas privatizações e viabilizou a mudança formal de controle de 30% do PIB. Durante esse mesmo processo, o BNDES se colocou como parceiro-chave das novas empresas, como a própria Vale e outras, como as doze empresas que surgiram a partir da privatização da Telebrás.

Mais tarde, essas empresas foram unificadas com o nome Oi e o BNDES passou a controlar 25% de seu capital. Para viabilizar a compra da Brasil Telecom, que foi outra empresa que surgiu a partir da "privatização" da Telebrás, o BNDES fez novos empréstimos. Com a compra da Brasil Telecom pela Oi, a empresa ter 50% das ações sob poder do estado, através do BNDES e dos três maiores fundos de pensão (Previ, Petros e Funcef). Mais 20% das ações ficaram sob poder da Andrade Gutierrez, que também é extremamente dependente e simpática ao governo.

É até difícil encontrar trajetórias diferentes para as ex-estatais. Na verdade, o controle acionário através do BNDES e dos sindicatos também não conta toda a história. Os anos 1990 no Brasil assistiram a um processo de captura regulatória by design. Ato contínuo às privatizações, foram estabelecidas agências reguladoras para os novos setores em que o estado havia "deixado" de atuar. Foi o primeiro grande momento de trânsito entre o governo e as grandes corporações.

Com os subsídios aos processos de privatização, as novas classes de empresários e acionistas não apenas ganharam acesso ao capital produtivo, mas também ganharam acesso ao estado na forma de representação regulatória. Foi um processo quase simultâneo no caso das telecomunicações.

Portanto, as "privatizações", longe de cortar o acesso do estatal aos recursos produtivos, na verdade foram simplesmente uma reconfiguração organizacional do capital. O capital formalmente saiu debaixo da asa do estado, mas permaneceu sob seu controle efetivo e mudou seu regime jurídico sem maiores consequências econômicas.

Não se trata apenas de dizer que o capital que foi "vendido" durante os anos 1990 tenha se assumido um papel "corporativista"; na verdade, esse capital continua a fazer parte do estado, é controlado diretamente (pelo BNDES e pelos fundos de pensão) ou indiretamente (através do aparato regulatório de controle conjunto das empresas e do governo) por ele.


O processo contrário também ocorreu em alta velocidade durante todo o governo petista (principalmente após a crise de 2008) e ainda está em curso até hoje. O BNDES passou a capitalizar corporações privadas e eleger seus braços político-econômicos. Isso incluiu a fusão da Perdigão e da Sadia, da VCP e da Aracruz Celulose, da Friboi com a Bertinpara aquisições da Ambev, entre várias outras.

As empresas de construção também são braços de atuação do governo brasileiro. A Odebrecht, particularmente, é aliada do PT desde 1992, e durante os governos Lula e Dilma, se realinhou em diversos programas de infraestrutura e militares. Outras empresas, como Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, que tiveram seus crescimentos historicamente alinhados aos projetos de infraestrutura nacionais, atualmente são braços de execução de planos políticos do governo. O governo tem uma caixa de ferramentas completa com contratos e controle acionário direto pelo qual ele influencia o setor "privado" no Brasil.

Na verdade, é incorreto considerar que os grandes conglomerados no Brasil sejam "privados" ou "estatais". É uma distinção sem qualquer significado nesse contexto; as privatizações criaram conglomerados mistos, com controle tanto privado quanto estatal e as grandes empresas que já eram privadas têm um nível de influência governamental grande o suficiente a ponto de os seus interesses e os interesses do governo estarem interligados. Não existe oposição entre o particular e o público, entre o privado e o estatal, porque há uma convergência de ambições entre grandes empresas e do estado que os funde.

O vocabulário das privatizações

Tanto quem apoia quanto quem rejeita as privatizações tende a sua posição pelos motivos errados.
As melhorias técnicas e dos serviços que aconteceram com as privatizações, no Brasil, não se deveram a mudanças fundamentais no controle do capital. Foram reformas que alteraram a estrutura organizacional e de incentivos das empresas "públicas", fazendo com que sua capitalização e suas ações fossem racionalizadas. A melhora que de fato existiu no desempenho das empresas privatizadas não se deveu a uma desestatização, que não ocorreu, mas à sua reestruturação.

(Da mesma forma, houve uma melhora no desempenho e na capitalização da Petrobras, mesmo sem ter deixado de ser estatal. As privatizações, assim como a abertura do capital da Petrobras, podem ser vistas então como estratégias de capitalização mais do que como cortes no poder estatal.)


Nossa linguagem reflete uma dualidade entre o "privado" e o "estado" e entre "privatizar" e "estatizar" que simplesmente não são reais. Essas dicotomias não têm poder explicativo porque o estado não está limitado por seu poder de ação formal e porque o estado não é uma barreira intransponível que as empresas não conseguem ultrapassar.

Basta ver, por exemplo, a trajetória do ex-Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Luiz Fernando Furlan, que foi instrumental no processo de fusão da Sadia com a Perdigão. Furlan saiu da Sadia para entrar no governo. Após a fusão, saiu do governo e voltou para a presidência do Conselho Administrativo da empresa.

Falar em "privatizações" é uma cortina de fumaça porque as privatizações não passaram de uma revolução dentro do poder, viabilizando a continuidade do controle estatal sobre setores vitais da economia. E é impossível reclamar sobre a ingerência governamental sobre empresas privadas: o grande empresariado brasileiro é parte do estado. A Vale é braço político-econômico do governo brasileiro; seu processo de privatização e capitalização foi estruturado justamente com esse propósito. Quando o cabeça da Vale deixou de ser interessante para o governo brasileiro, ele foi demitido.

Nossa linguagem não está preparada para refletir essa falta de discrepância entre o que é público e o que é privado. Também é difícil para a maioria das pessoas pensar no governo e nos grandes conglomerados como parte do mesmo sistema.

Além disso, tendemos a tratar o que é "estatal" como algo público e o que é "privado" como algo particular; nenhuma dessas definições é necessária. É perfeitamente plausível e, na verdade, é o que ocorre na maior parte dos casos que um bem estatal seja totalmente "privatizado"; ou seja, é perfeitamente possível (e, eu argumentaria, inevitável) que os bens estatais sirvam somente a uma pequena casta. Os termos que usamos são tão absolutamente impróprios que falamos de "nacionalização" ao falar de empresas estatizadas e de "entrega" quando falamos de privatização.

A experiência política e econômica brasileira prova que são todos termos inadequados e que nós temos que desenvolver um vocabulário que represente a realidade como ela é: onde empresas estatais ou "nacionalizadas" servem só aos interesses do estado e de grupos ligados a ele e onde empresas privadas possuem interesses convergentes aos do governo — ambos em oposição à população de forma geral.

Nossas ideias políticas só estão preparadas para lidar com grandes generalizações que colocam o governo e o setor privado como categoricamente distintos e que suas influências um sobre o outro são apenas desvios pontuais — tendemos a pensar que, na maioria dos casos, o governo e as empresas fiquem presos a seus papéis ideais. As privatizações, segundo esse pensamento, serviram para tirar do governo o controle de empresas e recursos e colocá-los em uma esfera sob a qual ele não teria qualquer influência.

Embora as pessoas geralmente reconheçam as forças que atuam no relacionamento entre o governo e as empresas, a maioria tende a adotar essa visão ingênua e a-histórica ao analisar processos e defender suas visões político-ideológicas.

Permanece o fato: as privatizações não foram uma diminuição, mas uma forma de estender e reformular o poder do estado. E o discurso pró-privatizações, assim, as defende nesses termos e não sob condições ideais. O contrário também vale: os opositores e detratores das privatizações tendem a pensar nelas como uma diminuição do poder do estado. Mas se as empresas de fato continuam sob controle estatal, qual pode ser o problema?

Semifascismo

Qualquer discurso pró-privatizações no Brasil, como alguns que têm surgido durante as campanhas eleitorais, deve levar em conta o seguinte fato: o estado brasileiro e as grandes empresas são uma só entidade.

Isso significa que qualquer esforço privatizante deverá levar em conta a presença e a influência do estado como fato fundamental. "Privatizar", assim, não é modificar radicalmente a estrutura de poder do estado, mas fazer leves ajustes e mudanças em regimes jurídicos de capitalização de empresas que, em última análise, permanecem sob o controle estatal.

Logo, tanto a ideia de privatizar quanto seu correspondente estatizador são ideologias fundantes do poder do estado.

Deve ser óbvio que privatizar, em si, não é passaporte para o desmonte do poder do governo; na Rússia, por exemplo, basicamente a mesma elite soviética assumiu o controle dos recursos "privatizados" na transição para o capitalismo.

No Brasil, o controle do governo sobre os grandes conglomerados corporativos nacionais "privatizados" e mesmo sobre as empresas que já eram nominalmente "privadas" não foi obra do acaso e nem um processo que sofreu resistências internas; a classe empresarial sempre esteve de braços abertos a esse relacionamento. Houve, especialmente na última década e meia, um alinhamento da visão da cúpula do governo formada pela elite petista e o empresariado nacional. Esse alinhamento também incluiu uma incorporação do velho nacionalismo defendido pela elite militar, que está confortavelmente encastelada e representada dentro do governo (apesar do que alguns conservadores afirmam, como se os militares fossem ignorados e humilhados pelo atual regime).

O Brasil vem desenvolvendo, na prática, um sistema semifascista de subsídios sistemáticos aos grandes capitalistas, de controle direto e indireto pelo governo das empresas e de comando dos sindicatos (que, através dos fundos de pensão, se tornaram também capitalistas).

As críticas de direita e esquerda a esse sistema são inadequadas porque acabam defendendo um aspecto diferente desse mesmo sistema durante o ataque. A defesa das privatizações, por exemplo, pode servir como crítica ao poder do governo, mas, se executada como foi no Brasil, serve também para estender o controle sobre empresas e capital que o governo possui.

Aliados e inimigos

Privatizar não é suficiente. O setor corporativo e o governo são uma só classe. As desregulamentações que ocorreram não foram capazes de frear a influência estatal sobre a economia, mas simplesmente alteraram seu caráter. Nosso vocabulário político não reflete bem as reais questões políticas porque coloca em oposição fundamental categorias que não são fundamentalmente distintas: privado e estatal, corporações e governo. A oposição real está entre aqueles que possuem e os que não possuem o poder.

Como eu mencionei em dois artigos que comentavam a atuação sindical no Brasil, a articulação que ocorre atualmente no país se dá entre setores empresariais, a elite estatal e as lideranças sindicais. Entre eles, se formou uma nova classe gerencialista que representa as aspirações do indivíduo e decide a repartição do bolo econômico. A única forma de resistir a essa realidade — que, sim, foi moldada pelas privatizações — é com a percepção de que a classe dominante não se limita a um setor categórico de "empresários" ou "burocratas". É uma classe mista com livre trânsito dentro do governo, dos sindicatos e dos conselhos administrativos.


Com o mais novo escândalo bilionário de corrupção na Petrobras, alguns já falam da necessidade de privatizar a empresa para tirá-la da esfera de interferência política. Mas o que se deve lembrar é que as privatizações brasileiras jamais tiveram o intuito de retirar do estado seu poder de influência.
O público e o privado, o capital e o trabalho agora não são opostos, são aliados. Por isso não é surpreendente que Dilma comemore os 12,6% de alta na produção de minério.

Quem pagou por esse recorde foi você.

por , terça-feira, 9 de setembro de 2014

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Post Histórico: A Falência do Banco do Brasil!



No filme nacional “Mauá - O Imperador e o Rei”, que retrata a vida de Irineu Evangelista de Sousa, mais conhecido como Barão de Mauá, há uma cena (no minuto 18) que apresenta o barão investidor ainda jovem realizando um “trade de valor” rs. Nesta passagem da sua vida, ele compra ações do Banco do Brasil a preço de banana na mão de um comerciante em dificuldades financeiras. Segundo o próprio comerciante, o banco estava quase falido e as ações não valiam nada, mesmo assim o jovem Mauá visualizou um bom negócio pensando no longo prazo.

No minuto 27 podemos ver uma cena na qual o Banco está sendo liquidado (sim, o BB já faliu, rs) e uma autoridade está realizando o resgate das ações dos acionistas majoritários. O jovem Mauá entra na sala para vender suas ações e, num primeiro momento, é rechaçado pela autoridade. Só após conferirem a autenticidade dos papéis, a venda é concretizada e o Barão realiza seu primeiro lucro.

Não sei se esta é uma cena baseada em fatos reais ou apenas ficção, até realizei uma pesquisa rápida na internet, mas a única informação que encontrei é que o Barão foi um dos responsáveis pela recriação do Banco do Brasil em 1851, vinte e três anos após a falência do banco em 1828. A falência do Banco de Brasil é descrita por Réges Philippsen no seu texto “Ferrovia Estreito a Lages” da seguinte forma:

“A abertura de novas estradas motivou o desenvolvimento econômico nacional. O Brasil recém independente em 1824 atravessava uma intensa crise econômica e financeira, e necessitava  de estímulos. O açúcar era o principal produto de exportação, seguido pelo tabaco e o algodão, formavam uma economia frágil que não suportou a concorrência com o açúcar extraído da beterraba nos Estados Unidos e na Europa, nem com as restrições ao tráfico de escravos impostas pelos ingleses. Os empréstimos feitos pelo Império para financiar a Guerra Cisplatina (1825-1828), e para sanar gastos com indenizações devidas à França e a Portugal, levaram a economia brasileira ao colapso, culminando com a falência do Banco do Brasil em 1828.”

Por ironia do destino, as ações do BB atingiram no dia 03/09/2014 o maior valor em toda sua história de vida (R$ 38,19). Foi uma semana histórica, não só para o BB como também para várias outras empresas brasileiras que pegaram carona na irracionalidade em que se encontra o mercado atual. Se estivesse vivo, o Barão estaria muito feliz com o desempenho do banco que ajudou a recriar, porém estaria muito preocupado com a situação atual da indústria brasileira, indústria esta que foi praticamente introduzida no país por ele mesmo.

E para ilustrar este post histórico, registro aqui as maiores altas até o momento (fonte Exame):

Banco do Brasil (BBAS3)

São Martinho (SMTO3)

Bradesco (BBDC4/BBDC3)

Itaú (ITUB4/ITUB3/ITSA4/ITSA3)

Taesa (TAEE11)

Kroton (KROT3)

Localiza (RENT3)

BB Seguridade (BBSE3)

Alupar (ALUP11)

Lojas Americanas (LAME4)

BRF (BRFS3)

BTG (BBTG11)

Qualicorp (QUAL3

Pão de Açúcar (PCAR4) 

Cemig (CMIG4/CMIG3)

Bom, destas 15 empresas eu sou acionista em 7, então posso dizer que estou participando desta festa de camarote, o verdadeiro rei do camarote, kkk.


Bom fds!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Itaú Unibanco - Composição Acionária

Bom dia pessoal!

Dando prosseguimento à série Composição Acionária, a empresa a ser analisada hoje será o colossal Itaú Unibanco. Este que é maior banco privado da América Latina (segundo maior banco no geral, atrás apenas do Banco do Brasil) e o 39o. maior do mundo segundo ranking da revista "The Banker".

O Itaú Unibanco é um banco brasileiro fundado em 4 de Novembro de 2008 mediante a fusão do Banco Itaú Holding Financeira e o Unibanco. Em agosto de 2010 a fusão foi aprovada pelo órgão regulador brasileiro sem nenhuma restrição.

A união entre os dois se acelerou devido à crise mundial no sistema financeiro em 2009. A medida foi bem vista por Henrique Meireles, presidente do Banco Central do Brasil na ocasião, afirmando que a fusão se tratava de uma iniciativa que contribuía para o fortalecimento do sistema financeiro nacional na conjuntura do mercado financeiro internacional.

Com a fusão, a marca Unibanco foi extinta em todas as agências, passando apenas a usar apenas a marca Itaú, a integração foi concluída em outubro de 2010 e custou mais de mais de 1 bilhão de reais.

Em 24 de agosto de 2009, é anunciada a junção das operações de seguro com a Porto Seguros. A operação consistia na transferência, por parte do Itaú Unibanco da totalidade de ativos e passivos de sua carteira de seguros residenciais e de automóveis para a Itaú Unibanco Seguros de Automóvel e Residência, que por sua vez seria transferida para a Porto Seguros.

Em Maio de 2013 adquiriu a Credicard por 3 bilhões de reais. Em Janeiro de 2014 comprou o banco chileno CorpBanca por 3,7 bilhões de dólares. Em Agosto de 2014 adquiriu 100% da gestora de ativos chilena Munita Cruzat & Claro, o valor da aquisição não foi divulgado pelo Itaú Unibanco.

Para quem se interessar mais sobre a história da fusão dos dois bancos, sugiro a leitura desta interessante reportagem: Executivo que trabalhou 40 anos no Unibanco conta bastidores de fusão com o Itaú.

Vamos então destrinchar a composição acionária do bancão, que diga-se de passagem não é nada simples...


Como pode ser visto na tabela acima, os "grandes donos" do banco são a IUPAR (Itaú Unibanco Participações) e a Itaúsa (Investimentos Itaú). Atualmente, 10,34% das ações ON e 90,71 das ações PN estão circulando no mercado (free float). Em tesouraria tem-se 2,3% das ações PN e a BlackRock Inc. possui 6,98% das ações PN (veja aqui a reportagem sobre a compra de ações do Itaú pela BlackRock).

Abaixo temos a composição da IUPAR. É formada pela Companhia E. Johnston de Participações (50% das ações ON) e pela Itaúsa (50% das ações ON e 100% das ações PN).


Abaixo temos a composição da Companhia E. Johnston de Participações. É formada pelos quatro filhos de  Walther Moreira Salles que foi o fundador do Unibanco.


Abaixo temos a composição da Itaúsa. É formada basicamente por membros das famílias Villela e Setubal, fundadores do banco Itaú. É uma estrutura tão complexa que preferi não colocar aqui, mas para os interessados, esta reportagem pode ser esclarecedora, além destes links de Wikipedia: link1, link2, link3 e link4. É possível notar na Itaúsa uma participação da PETROS nas ações ON e uma participação da BlackRock nas ações PN.


O organograma a seguir nos fornece uma representação melhor deste emaranhado de participações. Esta imagem é interessante pois apresenta todas as empresas que estão sob a holding Itaú Unibanco, incluindo a maquininha de dinheiro Porto Seguro. Os percentuais podem não corresponder à situação atual visto que a imagem é antiga.


Este outro organograma contempla também as outras partcipações da Itaúsa (Duratex, Itautec e Elekeiroz). Podemos ver que o real dono do banco é a IUPAR já que detém 51% das ações ON. Porém, as ações ON da IUPAR estão divididas igualitariamente entre as famílias Salles e Villela/Setubal, desta forma, o poder das famílias sobre o banco é equilibrado. Este link pode elucidar mais os trâmites dos controles estabelecidos.


E você leitor, já faz parte desta seleta lista de acionistas? Se não já passou da hora hein?! É um ótimo banco para investir na forma de ações e também para se ter contas digitais (acabei de abrir uma para mim), porém não sei se é uma boa empresa para trabalhar, na verdade banco algum deve ser bom para trabalhar, são bons apenas para acionistas penso eu.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Anima Educação - Resposta do RI

Boa tarde Senhores!

Tornei-me investidor da Anima recentemente e inclusive realizei um post sobre a empresa no meu portal de investimentos. Os leitores estão solicitando dados de quando a empresa possuía o capital fechado. São eles:

- Taxa de crescimento da receita líquida nos últimos 5 anos
- Taxa de crescimento do lucro líquido nos últimos 5 anos
- ROE anual nos últimos 5 anos
- Margem líquida anual nos últimos 5 anos

Gostaria também de um detalhamento das dívidas do grupo. Quais são os credores e prazo para pagamento.

Grato,


Resposta do RI

Bom dia,
 

Disponibilizamos somente os dados que estão divulgados em nosso site de RI.

Documentos que podem ser úteis para você são a Apresentação Institucional Jul/14 (por enquanto disponível somente em inglês; aba “Informações Financeiras” => “Apresentações e Teleconferências”) e os Earnings Release/Divulgação de Resultados de cada trimestre (aba “Informações Financeiras” => “Resultados Trimestrais”).

Sobre o endividamento, há uma nota explicativa no ITR com os detalhes.

Atenciosamente,

Heitor Parreiras
Relações com Investidores
heitor.parreiras@animaeducacao.com.br





Caixa e Endividamento


Ao final do 2T14 apresentamos um total em caixa e equivalentes de caixa de R$484,3 milhões, indicando um crescimento expressivo em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, principalmente pela captação dos recursos via IPO. Os empréstimos e financiamentos, por sua vez, totalizaram R$142,2 milhões, apresentando uma redução de R$23,5 milhões em relação ao 2T13.

Sendo assim, no 2T14, a nossa disponibilidade líquida de caixa era de R$342,1 milhões. Se considerarmos as outras obrigações, que englobam títulos a pagar de aquisições, incluindo o valor de R$44,3 milhões da obrigação pela compra de investimento (PUT HSM), e o parcelamento tributário, a nossa disponibilidade líquida totalizou R$261,3 milhões ao final do 2T14.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Alphaville: Fuga da Realidade

Dirigido por Jean-Luc Godard, Alphaville (1965) é uma ficção científica inspirada em filmes noir cuja temática é focada em aspectos filosóficos e existenciais tendo como pano de fundo os avanços tecnológicos que o futuro pode proporcionar. Godard nos apresenta um longa futurista e sombrio, que remete diretamente ao lado negro da humanidade, quando esta deixa de dar o devido valor aos sentimentos e a relação humana para favorecer a tecnologia.

Alphaville é uma das cidades mais estéreis e opressoras que o cinema já viu. É governada por um computador que dita como todas as pessoas da cidade devem viver - todas as emoções são proibidas. Em uma cena, um homem pergunta a uma moça se está chorando, ela responde que não, pois é proibido. Em todo lugar há uma bíblia, que na verdade é um dicionário que é constantemente atualizado. Todo dia ele tem palavras cortadas que foram consideradas proibidas.


Nos Alphavilles brasileiros as emoções são permitidas e a mais contundente talvez seja a sensação permanente de aprisionamento. Nestes condomínios - micro-cidades na verdade - os indivíduos têm a sensação de viver em uma cidade “ideal”, porém irreal. Os Alphavilles são a materialização dos contrates sociais na sua forma mais chocante, na medida em que percebemos uma sociedade aparentemente harmoniosa e feliz no lado de dentro dos muros e uma sociedade caótica e conturbada do lado de fora.

Sempre que passei perto de um destes condomínios tentei imaginar como seria viver lá dentro. Seria uma experiência saudável para os pais e filhos esta fuga da realidade? Para adultos que nasceram e cresceram em cidades reais penso que o impacto não é tão grande. Mas para um indivíduo em formação de personalidade e caráter, este isolamento do mundo real pode trazer alguns efeitos colaterais. É o preço que se paga pela fuga da violência das grandes cidades. Nestes dois documentários é possível perceber de forma clara esta tendência.



Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia

Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
O quase tudo quase sempre é quase nada...

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre as cobras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Nas grandes cidades de um país tão surreal
Os muros e as grades
Nos protegem de nosso próprio mal
Levamos uma vida que não nos leva a nada
Levamos muito tempo prá descobrir
Que não é por aí...não é por nada não
Não, não pode ser...é claro que não é
¿Será?

Meninos de rua, delírios de ruína
Violência nua e crua, verdade clandestina
Delírios de ruína, delitos & delícias
A violência travestida faz seu trottoir
Em armas de brinquedo, medo de brincar
Em anúncios luminosos, lâminas de barbear

Uma voz sublime
Uma palavra sublime
Um discurso subliminar
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez

Viver assim é um absurdo, (como outro qualquer)
Como tentar o suicídio (ou amar uma mulher)
Viver assim é um absurdo (como outro qualquer)
Como lutar pelo poder (lutar como puder)